23.7.10

Cinismo de sexta-feira de manhã

Fala-se muito nas gerações futuras, que pagarão a crise, que não terão reformas, coiso e tal. Mas há algum motivo para ter fé, um bocadinho só de fé, nas tais "gerações futuras"?

Vejamos, como exemplo, Luís Encarnação, porta-voz da Associação de Estudantes da Escola Secundária Gil Vicente, em Lisboa, que por sua vez é co-representante da Delegação Nacional de Associações de Estudantes do Básico e do Secundário. Na peça do Público sobre o novo estatuto do aluno, Luís afirma que aquele vai afastar os alunos da escola. E dá exemplos:

[link]"Quer um exemplo? O novo estatuto prevê que os alunos tenham de pagar o material que estragam. Isto é pedagógico? Não é. Se um aluno partir um vidro e for obrigado a pagá-lo, no dia seguinte parte outro e dois dias depois outro ainda. Porque a obrigação da escola não é castigá-lo, mas explicar-lhe por que é que não deve andar a partir vidros".

Ora bem. O Luís, ilustre membro das "gerações futuras", apesar de já ser presente, ainda vive com a cabeça sei lá onde. Deve ser das hormonas. Espero que seja das hormonas. O Luís não sabe, mas a obrigação da escola não é explicar a um aluno por que é que não deve andar a partir vidros. É ensinar-lhe, sei lá, Português, Matemática, História, e mais algumas disciplinas (áreas-projecto, cidadanias e educações sexuais são dispensáveis). Mais: o Luís ainda tem de aprender que as acções têm consequências, e que na vida real, quem parte um vidro, paga o vidro. Como, sei lá, quem rouba, vai para a prisão, a menos que se seja o Ricardo Rodrigues. Talvez o paizinho e a mãezinha lhe possam ensinar isto, já que os professores devem preocupar-se mais com, sei lá, sintaxe, equações ou os Descobrimentos. Adiante, que há mais pérolas:

[link]Luís Encarnação concorda com a distinção entre faltas justificadas e injustificadas mas não aceita que, ultrapassado o limite, o aluno seja sujeito "a um único plano individual de trabalho e não a todos quantos necessitar". Também contesta a possibilidade de suspensão por um dia dos estudantes sem abertura de processo disciplinar, em situações excepcionais, um "factor de exclusão" que diz ser "contraditório" com os deveres da escola de "educar e integrar".

Voltamos à história das responsabilidades. O Luís pode baldar-se quando quiser. Pode faltar às aulas para ir beber moscatel no bar mais próximo. Mas se o fizer, ter um "plano individual de trabalho" à sua disposição já é mais do que merece - ter "todos quantos necessitar" é simplesmente idiota. É institucionalizar a "balda". É dizer aos alunos: façam o que quiserem, que quando for altura disso, cá se arranja maneira de vos safar. Ah, e podem ir partindo vidros entretanto. Como é bom de ver, estas declarações - nas quais só faltou o protesto contra os exames nacionais, essa "tortura" - comprovam uma tese já antiga: por norma, durante o ensino básico e secundário, as associações de estudantes não são compostas pelos melhores alunos, mas por os mais imbecis.

john

4 Comments:

Blogger João Teago Figueiredo said...

Completamente de acordo.

12:41 PM  
Blogger Maya said...

Tenho pena do Luís. Das duas, uma: ou não teve sorte com quem tinha de formar a sua linda cabecinha, ou então é burro.

Ou então ... já está viciado no esquema 'caça ao voto'.

3:56 PM  
Blogger João Campos said...

Se assim for, Maya... então há-de fazer uma bonita carreira numa "jota"...

4:19 PM  
Blogger Kruzes Kanhoto said...

E esqueceu-se o Luís de mencionar que, com este regime, um rico pode partir mais vidros do que um pobre. O que é uma chatice.

No auge da loucura revolucionária que o país viveu, na escola que frequentei chegou-se ao ponto de efectuar um concurso para ver quem conseguia partir um vidro à bolada. Felizmente não se partiu vidro nenhum mas os promotores da iniciativa foram expulsos da escola. Apesar de tudo outros tempos...

3:55 PM  

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