O prazer egoísta
João: são diferentes experiências, ou diferentes formas de experimentar. O meu caso é o inverso: quando ouço uma música de que gosto, ou leio um livro que se torna indispensável, ou vejo um filme que me fascina, gosto de partilhar. Não por procurar uma "caução", digamos assim, ao meu gosto. Mas o meu prazer egoísta - eu percebo muito bem os prazeres egoístas, acredita - advém, não sem ironia, dessa partilha. De proporcionar a pessoas que me são próximas a mesma descoberta que eu tive - por vezes, a mesma epifânia, se quiseres. Foi o motivo que me levou a sugerir a metade dos meus amigos que lessem The Catcher in the Rye, de Salinger (fica a sugestão): um livro extraordinário que me marcou como poucos, apesar de o ter lido fora da "idade recomendada", se tal coisa existe. O mesmo motivo leva-me sempre, invariavelmente, a recomendar a amigos meus que ouçam Radiohead, Arcade Fire, Joy Division, Magazine, enfim, qualquer banda de que gosto mesmo muito. Ou que leiam, sei lá, Tolkien, Joan Vinge, Philip K. Dick ou Herbert - se bem que tenha que confessar que neste campo a minha taxa de sucesso é praticamente nula, sobretudo entre o sexo oposto (tema a que um dia espero poder dedicar-me). Não me incomoda absolutamente nada que quem me rodeia não goste, ou até que despreze os meus gostos; mas retiro muito prazer quando aquilo que lhes mostro os encanta tanto quanto a mim. Como se essa partilha estabelecesse um laço entre nós, sei lá. É difícil de explicar.
Como disse acima, o teu "prazer egoísta" eu compreendo muito bem. O que eu não consigo compreender é o deixar de gostar de algo que antes se gostava muito apenas e só porque mais de X pessoas também gostam. A minha crítica vai somente até aí - e, sobretudo, a quem tende a desvalorizar algo apenas e só por esse motivo. Acontece muito na música, quando uma banda indie se torna mainstream, ou no cinema, na oposição entre cinema independente/de autor e o conceito de blockbuster. Não consigo conceber que a qualidade de algo dependa não do objecto em si, mas de quem o experimenta. A Mona Lisa há-de ser sempre um quadro genial e fascinante, independentemente dos milhares (milhões?) de pessoas que, anualmente, a vêem ao vivo no Louvre.
john









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