Olé
João,
1) O facto de uma medida estar fundamentalmente certa (não sei se é constitucional ou não) não impede que ela seja demagógica. No dicionário, uma das definições possíveis de demagogia é "Discurso ou acção que visa manipular as paixões e os sentimentos do eleitorado para conquista fácil de poder político." Parece-me claro como a água que a atitude de César encaixa aqui na perfeição, e não é muito diferente do que Jardim já fez vezes sem conta, com mais ou menos espalhafato. Não será certamente por acaso que é sucessivamente reeleito. E quem diz Jardim ou César diz praticamente todos o políticos no activo. No entanto, a tua resposta convenceu-me: vou candidatar-me à Câmara de Beja e declarar uma "independência assim-assim" para o Alentejo, para ver se passo a ser português de primeira. É que ter autonomia para gastar, mas não para receber, é uma maravilha. E pelo caminho, pode ser que pelo menos assim eu volte a ter médico de família, o que daria imenso jeito para conseguir fazer umas análises.
2) Nem eu falava de Pollock ou de César Monteiro. Falava de Camões. Não acreditando que Cavaco não soubesse quantos cantos têm os Lusíadas, deixo duas perguntas:
1) Deve a pergunta "quantos cantos têm os Lusíadas" ser colocada, com natureza eliminatória, a cada potencial candidato à Presidência?
2) É ou não legítimo ter um Presidente que, pessoalmente, considere os Lusíadas uma estopada monumental?
Nota, João, que um Presidente representar a cultura da sua Nação não tem necessariamente que implicar gostar dela toda; se assim fosse, o Presidente teria de gostar de fado, de touradas (sim, de touradas), de Camões, de Pessoa, de cozido à portuguesa, teria de fazer férias em Quarteira ou na Praia da Rocha, teria de manter uma unhaca no dedo mindinho bem polida e teria de usar sempre a camisa aberta até ao umbigo. A Cultura, como bem dizes, é isto tudo. Mas para mim, tudo isto é irrelevante; Cavaco pode preferir ouvir os Sepultura a ouvir a Amália (eu prefiro), pode preferir ir ao Campo Pequeno ver um concerto a ver uma tourada (também prefiro), pode não apreciar Camões ou Pessoa (não sou fã de Camões, e muito menos de Pessoa), e pode preferir um Big Mac a um cozido à portuguesa (prefiro um Big Mac a um cozido, e não gosto de MacDonalds). O que importa é que o Presidente saiba defender e mesmo promover o fado, as touradas (este argumento é delirante), o Camões, o Pessoa e o cozido quando tal for necessário ou oportuno. Se ele gosta ou não disso? Se ele sabe apreciar o verso de Camões? É irrelevante para as suas funções, que não passam por gostar ou deixar de gostar do que quer que seja.
Uma última nota, João: o preconceito cultural existe de facto quando se fala de Cavaco, e não é normalmente na forma que mencionas (correctamente), mas na forma que eu menciono - na forma snob, elitista e ignorante que afirma, desdenhosa, "é claro que Cavaco não gosta de Pollack ou de Saramago". Basta ouvir quem enche a boca para falar disso - o espectáculo é ainda pior que o célebre momento do bolo rei, uma vez que este, ao contrário daquele, sempre tem um relativo valor cómico. Há sempre o velho contraponto entre presidentes como Soares e Sampaio, considerados "cultos" (o Sampaio, por Deus!), e o "economista" Cavaco - um preconceito que chegou até Manuela Ferreira Leite, essa "merceeira" e "inimiga da cultura", como bem sabes. Aliás, diria que o preconceito irá estender-se a qualquer candidato mais próximo de Direita, pois como se sabe, neste triste país a Esquerda tem o monopólio da Cultura: a malta de Esquerda, sempre na vanguarda de qualquer coisa mesmo que não saiba muito bem do quê, gosta das "artes", das "mensagens", dos "significados", das "instalações", do "caralho que os foda"; a malta de Direita, pobre de espírito, só quer saber dos números, e, marota que é, está sempre de tesoura na mão para cortar os subsídios aos artistas, coitadinhos*. Esta visão dá quase a entender que um "economista" não pode ser "culto" ou "gostar de cultura", e é no mínimo ridícula.
*Há ainda aquela conversa antiga do "artista" e dos subsídios. Neste país, "arte" é fazer uma banheira em forma de Portugal e metê-la no Terreiro do Paço; é pendurar pneus velhos em dois ferros e metê-los em frente aos Jerónimos; é fazer filmes que ninguém vê (provavelmente nem o realizador). É merda desta, e orgias respectivas, que se subsidia; só estou à espera de que estas tretas sejam também incluídas na factura da luz, junto a eólicas paradas e fotovoltaicas frias. Assim como assim, nessa conta também se inclui o Preço Certo em Euros e restante lixo, perdão, programação da RTP1.
john









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