Do humor involuntário
Esta prosa de José António Saraiva merece ser lida pelo seu elevado valor humorístico não intencional. Não me parece difícil concordar com a ideia de que existe uma certa ambiguidade no conceito de "trabalho infantil" quando opomos uma qualquer profissão aos clássicos "jogar à bola" ou à participação em "concursos de talentos" ou de moda; mas chegar desse ponto à ideia de que o fim do Serviço Militar Obrigatório (SMO) que, em última análise, foi o "responsável" (sei que não é a expressão mais adequada, desculpem) por o acto hediondo que teve lugar naquele hotel de Nova Iorque vai um salto argumentativo que passa uma vez pela indigência intelectual e dá três voltas ao disparate puro, e isto sem passar pela casa de partida e sem receber dois contos. É uma ideia que não me passaria pela cabeça nem após meia garrafa de Famous Grouse, desculpem. Para além da desculpabilização de alguém que, aparentemente, cometeu um crime violentíssimo, digno de figurar num episódio de CSI, ou até de Dexter: a desculpa é a homossexualidade de Carlos Castro, esse predador sexual [sic]? Por favor - bem sei que não há limite para o delírio, mas um bocadinho de bom senso e de decência nunca fizeram mal a ninguém.
E já que se fala do SMO: não houve, de facto, qualquer debate público sobre o fim do dito, que me lembre. E pergunto-me: que debate devia ter havido? Existe alguma coisa que, numa nação democrática e supostamente desenvolvida, justifique a obrigatoriedade de jovens de dezoito anos terem de passar três ou quatro meses (ou mais) no Exército? Da minha parte, que faço parte da geração que viu o SMO abolido, digo: não, nada o justifica; ainda bem que foi abolido. Não tenho absolutamente nada contra o Exército (mais um disclaimer irritante, para além de óbvio), não tenho absolutamente nada contra quem opta por seguir carreira militar, ou simplesmente por fazer o Serviço Militar e passar lá uma temporada - cada um sabe de si. Já teria muita coisa contra o obrigarem-me a fazê-lo. É muito melhor assim: quem quer, vai (e conheço muita gente a alistar-se); quem não quer, segue a sua vidinha. Mas já vi que tenho de me por a pau: de acordo com o arquitecto Saraiva, isto de não ter ido à tropa mais dia menos dia ainda me dá a volta ao miolo e me faz matar e capar alguém, ou pior, concorrer ao Ídolos. Por via das dúvidas, peço aos colegas do Jardim que escondam os saca-rolhas. E se me ouvirem a trautear uma canção pop, por favor avisem-me. Sempre me poupam ao ridículo.
john









1 Comments:
João, excelente. Só isso.
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