Pouca terra, pouca terra
Convém de facto recordamos, João, que foi durante os anos de Cavaco no Governo que, em nome do asfaltamento do país, se começou a desmantelar a ferrovia nacional. Falas, e bem, do caso da linha de Viseu, que para todos os efeitos é paradigmático: uma cidade como Viseu, provavelmente a mais desenvolvida do interior do país e há vários anos considerada uma das cidades de Portugal com mais qualidade de vida, não está servida pela ferrovia, quando em tempos esteve. Essa ligação acabou durante os anos de Cavaco, em troca de quê? Das belas rotundas da cidade?
Um dos grandes erros da governação recente do país, a meu ver, remonta a essa época: o desinvestimento nos caminhos-de-ferro, em troca de um super-investimento em auto-estradas (note-se que no interior as estadas municipais e as nacionais continuam em muitos casos ao abandono). É evidente que o erro nunca foi corrigido, e os governos da última década mostraram especial empenho em desmantelar o que falta. Recordo que quando deixei a aldeia e vim para Lisboa, era possível apanhar um comboio no Barreiro - a ligação da ponte ainda não estava concluída para lá de Coina - e viajar sem mudanças, com paragem em todas as estações e apeadeiros, até Vila Real de Santo António. Hoje, quem quiser chegar do Barreiro a Vila Real de Santo António, precisa de apanhar três comboios, pelo menos (dois se sair de Lisboa - o Alfa Pendular não compensa o que se perdeu). Quem queria um serviço mais rápido, optava pelo Intercidades,que não ficava em Faro, como hoje - seguia até Vila Real de Santo António, com paragem em Olhão e Tavira. Estou a falar apenas do que conheci bem. Sei que, no interior, o ramal Beja - Moura também foi desactivado; e que se avançarmos para Norte, muitas mais linhas destruídas ao longo dos últimos 25 anos iremos encontrar. Os casos mais recentes da linha da Lousã, com movimento, ou da linha do Tua, com potencial turístico, são paradigmáticos de uma certa maneira enviesada de os nossos governantes encararem o País.
Por mim, acabava-se a hipocrisia. Somos dez milhões de habitantes: era só o Governo encaixar cinco milhões na "Grande Lisboa", quatro milhões e meio entre Gaia/Porto e Braga, duzentas e cinquenta mil na Madeira e duzentas e cinquenta mil no Algarve, pelo menos durante os meses de Verão. O resto do país vendia-se. Aposto que alemães, ingleses, holandeses e chineses não se importariam nada de comprar bocados do Alentejo, da Beira, de Trás-os-Montes; o país, rebaptizado "República Litoral Portuguesa", mantinha a sua "vocação marítima"; e com jeitinho e habilidade para o negócio, ainda dava para pagar a dívida, baixar o IVA em um por cento, pagar o BPN e o BPP, uma cana de pesca nova para o Armando Vara, e, para não se dizer que o país é forreta, um par de Purdeys para Alegre.
john









1 Comments:
Apesar do meu propósito ter sido apenas sublinhar a falta de seriedade com que CS faz declarações. A falsidade, a falta de memória, etc etc (e o etc aqui é muito importante). Apesar disso, concordo com tudo o que dizes.
Abraço,
jtf
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