A Canção da Intervenção
É curiosa a reacção que a canção-de-intervenção dos Deolinda tem provocado nalguma blogoesfera, escandalizada pela manifestação do(e) grupo. Não deixa de ser interessante que se olhe para esta letra e se pense em encontrar incongruências, faltas de adesão à realidade e um ou outro enquadramento temporal atrasado. Ainda para mais quando, no fundo no fundo, aquela canção retrata a vida de centenas de milhares de pessoas que, envergonhadamente, nunca até aqui a quis sequer evocar. Esta geração dos 30-35 é a primeira que viverá na descida da montanha, no declínio, e viverá a decrescer de qualidade-de-vida e de direitos, ao contrário dos seus pais e dos seus avós. Tudo isto parece tão indesmentível que o exercício fátuo de tentar escondê-lo assemelha-se ao mais puro dos pecados. Contrariamente a alguns comentários insurgentes, eu acho que esta «geração sem remuneração» parece uma interjeição que tem como interlocutor certas Empresas Privadas, Empresas de trabalho temporário e outras. E não tem, necessariamente, o dedo apontado ao Estado. Os Estágios, os Recibos-Verdes e tudo o que mais se inventou. Neste sentido, esta canção significará vincar a ideia de que muita da atitude empregadora se orienta pela lógica exploradora, precária, de maximização do lucro accionista e minimização do projecto social moderno. E só isso, por pouco que fosse, bastaria. Ao mesmo tempo, muitos apontaram à canção a falta de soluções para o problema, a enumeração das causas, acusando-a de ser apolítica. Ora, o conflito entre pais e filhos, uns com a prometida evolução crescente de direitos e qualidade-de-vida, outros com a perspectiva de decréscimo, sem fim à vista, encerra em si mesmo um problema tão complexo que nenhuma canção o resolveria.
E se, por uma vez que fosse, se olhassem os direitos «adquiridos» como o lado bom da estória? E se olharmos para estes direitos como sendo o que está certo e o que deveria esta geração exigir?
jtf









3 Comments:
O que dizes está tudo muito certo, com uma excepção: a tal "geração parva" não é a que tem entre 30 e 35 anos - poderá chegar aos 35, sim, mas começa nos 20, 21. É a nossa geração.
Não tem o dedo apontado apenas ao Estado, mas também ao Estado. Primeiro, porque no que aos recibos verdes diz respeito, o Estado não é uma virgem; e, de resto, porque apenas o Estado poderia ilegalizar o trabalho não remunerado, aqui conhecido pelo eufemismo de "estágio", quando efectivamente não o faz. Concordo com o que dizes sobre as empresas, mas elas funcionam na mesma lógica do cão, que só lambe os tomates porque pode.
Eu não sei o que esta geração quer - neste momento, ouço (leio) pessoas da minha idade a falar de revoluções que não sairão das paredes binárias do facebook, do twitter, do youtube. Querem ir atirar pedras? Força. Vamos a isso. Mas não consigo perceber se querem independência ou mama. Tenho o meu palpite, invariavelmente cínico, mas não sei. Quanto à música, ela apenas aponta um problema que, sinceramente, salta à vista há anos. Eu ouço-a e sinto vontade de rir. A malta ouve-a e fala e enfurece-se - mas não faz rigorosamente mais nada. Nem se revolta internamente - a coisa esgota-se entre os dedos e o teclado. Para hino, convenhamos que é muito fraquinha.
Abraço
Certo, camarada. Eu disse geração dos 30-35 como sendo a primeira a sofrer o declínio. Ou seja, depois dessa virão todas as outras, incluindo a nossa. Eu também acho que a canção era dirigida ao Estado. O que eu quis dizer foi que esse não é o destinatário único deste sentimento. Que é um sentimento partilhado - mal ou bem - por muita gente e que merece atenção. Ao invés, tem merecido, por parte de certa blogoesfera mais de direita, um certo sarcasmo que não me parece adequado.
Um grande abraço,
João
ps. temos que pensar em fazer um post audio. Que dizes?
Acho que na madrugada deste blog tínhamos pensado em fazer um vídeo mesmo.
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