25.6.11

Salada II

eu, pessoalmente, acho o caso da licenciatura absolutamente lateral e pouco relevante do ponto de vista jornalístico. Esta minha posição não é inconciliável com o facto de se achar - e eu acho-o convictamente - que os Primeiros-Ministros não são intocáveis. Não são e não devem ser. Mas este caso levanta uma discussão sistémica - que nunca se faz em Portugal - e que é a que nos conduz à mensuração dos benefícios e malefícios entre o perigo panfletário do jornalismo furão, e a relevância pública (e jornalística) de certos temas. Porque, como está bom de ver, o perigo de manipulação jornalística intencional - sem base factual minimamente sustentada - existe e põe em causa a vida social saudável.

Do meu ponto de vista, qualquer abordagem sensacionalista é nefasta. É-o com Paulo Portas e foi com Sócrates. Facilmente admitiremos que por muito menos do que o caso dos submarinos representa, já Sócrates teria sido trucidado pelo poderoso anti-situacionismo.

Devo dizer, igualmente, sobre o caso do processo movido pelo Presidente da República, que Cavaco «anda por cá» há muito mais tempo do que Sócrates. Em abono do rigor, deveríamos normalizar os conceitos e chamar Cavaquice ao exercício em análise. O seu a seu dono.

O argumentário do PSD nos últimos anos centrou-se naquilo a que podemos designar como simplificação arrogante da culpa. Quase todo o discurso de oposição, nos últimos anos, circunscreve-se à ideia básica - e, por isso, tremendamente eficaz quando em contacto com as massas - de que a situação a que o País chegou reside, quase de forma mística, na ausência do racional da personalidade de José Sócrates. Ou seja, a técnica argumentativa concentrou-se na generalização de que Sócrates é um ser desprovido de racionalidade e - até mesmo - humanidade. Daqui decorre uma certa ideia espalhada de que os problemas são de fácil resolução e só não são resolvidos porque o nível cognitivo de Sócrates não o permite. Ora, do ponto de vista político, este tipo de «chegada ao poder» acarreta dois problemas fundamentais: 1) a fasquia que o PSD coloca a si próprio, agora que é Governo, é tão alta que dificilmente a transporá; e 2) no caso do PSD acreditar mesmo que o único entrave ao «desenvolvimento» (em todos os seus significados) era José Sócrates, o país pagará muito caro esta infantilidade.

Poder-se-á, facilmente, admitir que a forma como Sócrates lidou com a crise foi infantil e obstinada. Eu admito-o. A minha única interrogação é se isso foi uma inevitabilidade ou uma intencionalidade. Explico: estar de fora é muito fácil, difícil é lá estar. Os Governos dos restantes países da União reagiram da mesma forma que Portugal, em 2008 e 2009. Serão todos maus? Duvido.

Eu também considero pulha a comparação com DSK. O curioso - e era a isto que me referia - é que muitos foram os que acharam admissível e explicável a comparação de Sócrates com Hitler. O nível de condenação foi incomparavelmente menor.

Quanto ao teu ponto 2.1, diria que poderão interessar-me vidas sexuais de algumas figuras públicas. Os políticos não estão nesse grupo.

João, confesso-te que sou muito pouco sensível ao argumento de que «pior do que governo anterior não poder ser», quando nos referimos ao novo executivo. Acho-o perigoso e, sobretudo, falacioso. Do mesmo modo que poderemos sempre estar melhor; poderemos também estar pior. A mim preocupa-me o facto de que já passaram quase quarenta anos desde que a democracia foi conquistada em Portugal, e ainda hoje ouvimos o uivo público de que nenhum Governo serve. Porventura - estou certo disto -, o problema é outro. O problema é outro.

jtf

Ps: João, dir-te-ei que sou um pouco fanático e um pouco socialista. Como sou um pouco muitas outras coisas. Não faz mal a ninguém.

1 Comments:

Anonymous john said...

No caso da licenciatura, teremos de concordar em discordar. O que é saudável, diria.

Qualquer abordagem sensacionalista é potencialmente nefasta, a meu ver. Não tem necessariamente de o ser. A linha de fronteira do sensacionalismo, sobretudo na política, pode ser incrivelmente ténue.

Cavaquice, Socretinice, é irrelevante - resume-se a uma idiotice potencialmente perigosa.

Concordo que a fasquia está elevada. E duvido que consiga saltar-lhe por cima. Mas os nossos (no geral) critérios de exigência já conheceram melhores dias.

Os restantes governos da Europa pouco me dizem. Quando falo de 2009, refiro-me concretamente às medidas eleitoralistas - aumento da função pública, redução do IVA (esta até foi antes, verdade seja dita), o famigerado "cheque-bebé", etc.

Se há coisa que aprendi em oito anos de bloga, é que as comparações com Hitler, mais do que pulhas, conseguem apenas banalizar o velho Adolfo. O resto são amendoins.

O "pior do que o governo anterior não pode ser" é, como sabes, uma opinião muito pessoal minha, muito pouco fundamentada, e, como tal, passível de se vir a revelar muito errada (esperemos que não). Quanto a este Governo: há lá algumas figuras que me parecem muito positivas, outras nem por isso. Para já, dou o benefício da dúvida. Como disse antes, se se revelar mau ou mesmo pior, daqui a quatro anos - ou menos - corremos com ele, mesmo que no meu caso isso implique necessariamente um voto em branco ou nulo.

É possível que o problema seja de facto outro. Pergunta: qual achas que é?

Quanto ao fanatismo, também o tenho (moderadamente, passe o paradoxo), mas reservo-o para a literatura de fantasia/ficção científica e para os filmes do Kubrick.

Abraço

11:08 PM  

Post a Comment

<< Home