Teorias da Conspiração?
Sempre gostei muito de teorias da conspiração. Mas deveriam ser atribuídas notas - de 1 a 10, talvez - às teorias da conspiração, classificando-as em função do seu grau de a) verificabilidade e b) verosimilhança.
A recente problemática da SOPA ou da PIPA - sobre a qual já escrevi - poderá ser classificada com um 10. Até mesmo com um 11!
A internet não pertence a ninguém. É terreno baldio que todos os habitantes da aldeia global podem usar conforme entendem. E como é muito grande, dá para todos: o António planta lá umas árvores de fruto, o Zé Mário semeia lá um bocado de trigo e a Maria planta lá umas couves. Daquelas enormes que crescem de forma inusitada no Entroncamento. E há aqueles que fazem jardins de micróbios. O que é sempre útil...
Enfim, tudo vai bem na nossa aldeia global. As pessoas são felizes e têm um acesso à informação, ao conhecimento e às couves da Maria como nunca havíamos visto na nossa civilização. Mais, ainda, o uso do terreno baldio contribui para a civilização como nunca. Justamente por isso.
Porém, não pode ser controlado... está fora das redes de controlo do Ti Manel - que é um "empresário" da aldeia... enfim, é o dono da taberna - e do Ti Celestino - que é o Presidente da Junta. Ora estes dois são aqueles que detêm, quase que inteiramente, o poder local. E não gostam - como nunca gostaram - do terreno baldio. É que, se as pessoas da aldeia usam o terreno baldio para produzir coisas que sustentam o seu novo estilo de vida civilizado e civilizante, acabam por não precisar do Ti Celestino para intervir nos casos de abespinhação local, porque a comunhão no terreno baldio cria, em si, soluções silenciosas e absolutamente diplomáticas para os problemas entre os aldeãos. Da mesma forma que não precisam do Ti Manel para lhes vender tudo aquilo de que eles precisavam anteriormente. (Recordemos que o terreno baldio é mesmo muito grande e dá mesmo para todos... lamento não ter criado personagens em número suficiente para ilustrar a imensidão do potencial do terreno baldio.)
Então, o Ti Manel (que é o representante dos interesses corporativos) e o Ti Celestino (que é o representante dos interesses políticos) decidiram que haviam de bloquear o acesso ao terreno baldio. E eis que, em conjunto, fizeram uma valente "sopa" e uma valente "pipa".
De volta à realidade: porque motivo querem os interesses corporativos e os interesses políticos controlar os conteúdos disponíveis na internet? Afinal, duas das coisas que a internet faz é tornar os mercados globais e, através do livre trânsito de informações, contribuir para a consciencialização dos cidadãos uma vez que têm acesso livre a milhares de milhares de milhões de conteúdos sobre, basicamente... tudo! E é esse o problema, verdadeiramente. A internet - que começou por ser uma tecnologia militar nascida da paranóia da Guerra Fria - tornou-se a mais possante ferramenta de "empowerment" que os aldeãos da aldeia global têm à sua disposição. E não há nada que as grandes corporações e os governos temem mais do que uma população consciente e livre: livre para pensar, para escrever e aprender; livre para fazer compras onde e como quiserem. A internet tornou-se uma ameaça ao “establishment”, da mesma forma que as massas populares se tornaram uma ameaça ao Antigo Regime de Luís XVI em 1789...
O Ti Manel e o Ti Celestino há muito que temiam esta coisa... e, quando, noutra parte do baldio o Yousouf e o Achmed conseguiram, através de um extraordinário uso do potencial do terreno baldio, acabar com o longo domínio do Mahmud e do Al-faddi como presidentes da junta - das suas juntas, claro... não esquecer que o baldio é mesmo, mesmo muito grande - acharam que isso poderia acontecer na sua parte da aldeia. Até que um dia, entre outros, uma série de aldeãos começaram a fazer ameaças e exigências: eram os movimentos Occupy Junta de Freguesia do Ti Celestino e Occupy Taberna do Ti Manel... A Primavera estaria para chegar mais cedo? Possivelmente... Mas ainda havia tempo para agir, pensaram os Ti Manel e Ti Celestino. “Vamos falar com o Dr. Joaquim” - que é o Presidente da Câmara - “e explicar que o uso do terreno baldio prejudica os interesses e direitos de alguns aldeãos” - até aqui não mencionados - “e dizer que pode haver roubos aqui e acolá e que o baldio está a ficar perigoso.” E conseguiram falar com o Presidente da Câmara - que é um pouco estúpido e achou que eles tinham razão. E em breve, uma nova lei será aprovada na Assembleia Municipal, lei essa que - se não suprime inteiramente o terreno baldio - limita potencialmente o seu uso livre. E os aldeãos, se quiserem batatas vão ter que voltar à Taberna do Ti Manel para as comprar. E se tiverem divergências têm que depender do arbítrio e do bom senso do Ti Celestino (do qual o Ti Celestino já havia dado boas provas ao ir ao Banco do Dr. Aníbal pedir dinheiro, em nome da Junta, para comprar um belo carro... para uso estritamente oficial, claro está!).
E todos ficarão contentes. O Ti Manel e o Ti Celestino, claro...
Os outros não interessam. Que ideia absurda esta de ter uma aldeia contente e a funcionar de forma justa e democrática! Francamente...









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