A Dama de Ferro
Muito campo haveria para desbastar numa película vagamente biográfico-histórica como esta, mas, para lamento dos cinéfilos, pouco há de verdadeiramente notável. Apenas (e não é pouco) o assombro do desempenho de Meryl Streep dá a este The Iron Lady o interesse que naturalmente nunca poderia vir a ter.
Toda a construção física, bélica, expressiva e impressiva de Streep transporta esta M.T. para um patamar extra-representativo; como que construindo uma
Thatcher para lá da própria Thatcher; um espelho para lá do próprio reflexo.
Do ponto de vista do confronto narrativo (e, por que não?, ideológico), o conteúdo é pobre, demasiadamente despido de contraplanos, unidireccional e menos estimulante do que a dialéctica política impele qualquer cidadão consciente e verdadeiro a colocar a si próprio. Dá-se-lhe um ar de evangelização-das-massas que me faz, por momentos, desacreditar na interpeladora missão da arte. Tudo isto pintalgado com fraseologia populista, redonda, oca e nauseante que baste. Este enquadramento doutrinador de um certo conservadorismo britânico, ilhéu, liberal, amante deslumbrado do free market; ignora, com a glória só ao alcance de certos orgulhos solitários, o papel da desregulação na actual crise, fim de uma longa viagem; da constante alienação do problema das desigualdades sociais do qual o Reino Unido ainda hoje padece; da demissão de um Estado Social essencial à coesão e à prossecução da igualdade como trilho; do orgulho nacionalista pago a litros de RH positivo alheio; da auctoritas servida a puxões de cassetete e a galopes de cavalaria; entre muitas outras minudências às quais só as classes operárias se prestam verdadeiramente.
Phyllida Lloyd não conseguiu escapar à armadilha da atabalhoada analepse-prolepse-analepse que serve os interesses de uma biografia insular pouco estimulante e enfartada. Nesse sentido, como que se opera uma redução do volume interpretativo e se ignora o evidente confronto principal que é o interior, em que se medem as forças entre o ser-individual e o ser-colectivo: a Margaret Roberts e a Margaret Thatcher, a mulher pequeno-burguesa e a líder política do Reino Unido de 79 a 90.
jtf









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