Re: Exoplanetas - Take II
(...) durante os últimos seis anos - que, goste-se ou não, determinaram em larga medida o estado onde chegámos.
Sobre este tópico, e dado que o João Teago já referiu os outros pontos que me pareciam relevantes, queria apenas focar-me nesta questão, por representar um ponto de vista que é frequentemente difundido (em Portugal e não só), e que tendem a servir depois de trampolim a afirmações do tipo "a crise resulta da descontrolo da despesa estatal", abrindo caminho à legitimação de remédios à base de austeridade infinita (ainda que, no caso do John, esta sucessão não esteja presente).
Longe de mim querer defender o Sócrates, mas parece-me que esta focalização nos últimos 6 anos deixa passar em claro a hipótese de a crise que enfrentamos ter a sua raiz na Zona Euro (mais precisamente, numa união monetária disfuncional) e, com isso, leva-nos a um diagnóstico errado - de onde decorre que as soluções definidas dificilmente produzirão resultados.
A razão principal para achar que a crise muito pouco tem a ver com descontrolos estatais chama-se Espanha (clicar nos gráficos para aumentar):

Como estes 2 gráficos evidenciam, a Espanha estava claramente no grupo dos bons alunos (em termos de disciplina orçamental), chegando ao final de 2007 com uma dívida pública bruta* de apenas cerca de 36% do PIB (face a cerca de 65% da Alemanha), após um longo e sustentado processo de redução do peso da dívida pública, a descer consecutivamente desde 1996 - mesmo em 2011, a dívida pública representará cerca de 68% do PIB, claramente abaixo dos 81% da Alemanha. Em paralelo com isto, a Espanha entrou na crise com superavits orçamentais (1,9% do PIB em 2007) consideravelmente superiores aos da Alemanha (0,2% do PIB). Sim, os défices aumentaram enormemente a partir desse ano, mas isso corresponde exactamente ao que seria de esperar relativamente a um país que enfrenta uma forte recessão causada pelo rebentamento de uma bolha no sector do imobiliário (que, não é demais referir, foi causada pelo sector privado).
O resultado da crise, agravado pela austeridade? Bem, além de os juros relativos à dívida pública terem aumentado consideravelmente (bem como os spreads em relação à dívida pública alemã), uma das consequências foi esta:

Desemprego galopante (21,6% no final de 2011), acompanhado por uma quebra substancial do PIB (decresceu em 2009 e 2010, bem como no último trimestre de 2011).
* Dados relativos à dívida pública líquida poderiam ser preferíveis, mas não os consegui encontrar.
sp









2 Comments:
Do ponto de vista do leigo - o meu - tudo isto me parece muito correcto (sem ironia) Apenas uma ressalva - já que há aqui uma citação minha, eu aproveito e faço outra:
Simplesmente não me parece sério - aliás, parece-me desonesto - acusar um Governo de em nove meses não resolver a crise enquanto se ignora convenientemente os seis anos que antecederam as eleições (e aos anos anteriores, também, que os intervalos de tempo prestam-se a tudo)
E para não parecer demasiado idiota, uma outra, não da minha autoria (obviamente):
There are three kinds of lies: lies, damned lies and statistics.
Como eu não tenho o talento para uma frase deste calibre, a ideia é mais ou menos esta: os intervalos de tempo são como as putas - prestam-se a tudo. Não me admiraria que, considerando um intervalo de tempo de um milénio, chegássemos á conclusão de que esta história toda de Portugal foi um valente erro de cálculo.
Abraço (e bom post).
camaradas, bela troca de posts ao mais alto nível. camarada john, confesso que uso amiúde esse argumento dos lapsos de tempo prestarem-se a tudo; na grande maioria desses casos para rebater aquela frase muito ouvida a norte do mondego: «o fcp é o maior clube português dos últimos 19 anos». parabéns aos dois.
abraços,
jtf
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