21.2.12

Re: Exoplanetas - Take II

(...) durante os últimos seis anos - que, goste-se ou não, determinaram em larga medida o estado onde chegámos.

Sobre este tópico, e dado que o João Teago já referiu os outros pontos que me pareciam relevantes, queria apenas focar-me nesta questão, por representar um ponto de vista que é frequentemente difundido (em Portugal e não só), e que tendem a servir depois de trampolim a afirmações do tipo "a crise resulta da descontrolo da despesa estatal", abrindo caminho à legitimação de remédios à base de austeridade infinita (ainda que, no caso do John, esta sucessão não esteja presente).

Longe de mim querer defender o Sócrates, mas parece-me que esta focalização nos últimos 6 anos deixa passar em claro a hipótese de a crise que enfrentamos ter a sua raiz na Zona Euro (mais precisamente, numa união monetária disfuncional) e, com isso, leva-nos a um diagnóstico errado - de onde decorre que as soluções definidas dificilmente produzirão resultados.

A razão principal para achar que a crise muito pouco tem a ver com descontrolos estatais chama-se Espanha (clicar nos gráficos para aumentar):

Como estes 2 gráficos evidenciam, a Espanha estava claramente no grupo dos bons alunos (em termos de disciplina orçamental), chegando ao final de 2007 com uma dívida pública bruta* de apenas cerca de 36% do PIB (face a cerca de 65% da Alemanha), após um longo e sustentado processo de redução do peso da dívida pública, a descer consecutivamente desde 1996 - mesmo em 2011, a dívida pública representará cerca de 68% do PIB, claramente abaixo dos 81% da Alemanha. Em paralelo com isto, a Espanha entrou na crise com superavits orçamentais (1,9% do PIB em 2007) consideravelmente superiores aos da Alemanha (0,2% do PIB). Sim, os défices aumentaram enormemente a partir desse ano, mas isso corresponde exactamente ao que seria de esperar relativamente a um país que enfrenta uma forte recessão causada pelo rebentamento de uma bolha no sector do imobiliário (que, não é demais referir, foi causada pelo sector privado).

O resultado da crise, agravado pela austeridade? Bem, além de os juros relativos à dívida pública terem aumentado consideravelmente (bem como os spreads em relação à dívida pública alemã), uma das consequências foi esta:

Desemprego galopante (21,6% no final de 2011), acompanhado por uma quebra substancial do PIB (decresceu em 2009 e 2010, bem como no último trimestre de 2011).


* Dados relativos à dívida pública líquida poderiam ser preferíveis, mas não os consegui encontrar.

sp

2 Comments:

Blogger João Campos said...

Do ponto de vista do leigo - o meu - tudo isto me parece muito correcto (sem ironia) Apenas uma ressalva - já que há aqui uma citação minha, eu aproveito e faço outra:

Simplesmente não me parece sério - aliás, parece-me desonesto - acusar um Governo de em nove meses não resolver a crise enquanto se ignora convenientemente os seis anos que antecederam as eleições (e aos anos anteriores, também, que os intervalos de tempo prestam-se a tudo)

E para não parecer demasiado idiota, uma outra, não da minha autoria (obviamente):

There are three kinds of lies: lies, damned lies and statistics.

Como eu não tenho o talento para uma frase deste calibre, a ideia é mais ou menos esta: os intervalos de tempo são como as putas - prestam-se a tudo. Não me admiraria que, considerando um intervalo de tempo de um milénio, chegássemos á conclusão de que esta história toda de Portugal foi um valente erro de cálculo.

Abraço (e bom post).

1:01 AM  
Blogger João Teago Figueiredo said...

camaradas, bela troca de posts ao mais alto nível. camarada john, confesso que uso amiúde esse argumento dos lapsos de tempo prestarem-se a tudo; na grande maioria desses casos para rebater aquela frase muito ouvida a norte do mondego: «o fcp é o maior clube português dos últimos 19 anos». parabéns aos dois.
abraços,
jtf

9:23 AM  

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