Tabu (2012)
É com este Tabu que Miguel Gomes expande a já de si endémica inclinação para a profundidade. Há, no prólogo, uma chuva oblíqua sobre o íntimo do africanismo; e dos outros ismos depositados e que lhes são consanguíneos: primos, cunhados e assim por diante. Trata-se, como se perceberá depois, de uma peregrinação granulada aos primórdios do cinema e às entranhas da linguagem enquanto meio de suceder imagens umas depois de outras com (ou sem) fim à vista. Resiste-se heroicamente às sereias do pastiche e do déjà vu, sempre prontas a desvios de rota e a pântanos alienantes.
Há, também, um exercício que consiste na reunião da narrativa numa contemporaneidade quotidiana que actua como ponto de partida, o tempo presente; ao qual se regressa sempre que se revisita aquele abandonado passado individual e colectivo. Esta ligação límpida é abalada por um jogo de fotografia perturbante -perfurante até- que consegue transformar a actualidade num esbatido reflexo daquilo que nos é anterior, ulterior, longínquo, íntimo e -imagine-se- anatomicamente inescapável.
Deste modo, pode dizer-se com propriedade que não há nenhum filme como este. Tabu enche de corpo o gasoso conceito de novidade, em cinema. É, de facto, um novo mecanismo para filmar a inquietude; o desassossego inerente à condição dos vivos de hoje e dos vivos de ontem. Onde quer que a acção decorra. A narrativa é, aqui, um dialogo aberto entre uma aparente linearidade de temáticas e aquele arrebatamento com que se desfaz o papel-celofane que cobre os objectos ainda por explorar.
Tabu é o triunfo da elegância sobre a repetição.
jtf









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