Filhos em tempo de crise
Sempre falámos de ter filhos. Conversávamos sobre isso e fazíamos contas à dimensão da ninhada de miúdos que queríamos: a minha mulher dizia dois ou três; eu era mais ambicioso — queria quatro, para ter um quarteto de cordas em casa, talvez mais para poder fazer uma pequena orquestra de câmara (nunca fui de futebol e a ideia de ter onze filhos, para ter uma equipa de futebol, francamente, deprime-me...). Acabámos por decidir que dois, ou três seria suficiente. Mas dois ou três começa sempre por um...
E a vida foi avançando. Mas foi avançando rapidamente e para lado nenhum. A falta de perspectivas de emprego ou trabalho em Portugal, a riqueza de um país desbaratada em asfalto e monumentos nacionais em forma de derrapagem orçamental e a “crise”, tudo isso nos foi — lentamente — roubando o sonho de sermos pais, nem que fosse de um pequeno solista, já nem pedia o meu trio de clarinete, piano e violoncelo.
Um dia a minha mulher disse-me que estava grávida. Sem planos, sem perspectivas, munidos de um apurado sentido de improviso decidimos avançar, decidimos ser pais. Afinal, a decisão estava tomada e, enfim, materializara-se.
Hoje, o nosso pequenote tem três meses e é a maravilha mais perfeita que existe. A vida mudou radicalmente e o lento resvalar para a “Angst” de quem não tem nada para fazer e está à espera que aconteça alguma coisa (não obstante os melhores esforços para ser pro-activo) parece ser uma coisa do nosso passado. Lutar nunca me pareceu tão material e humano, nunca me pareceu tão concreto. Quem diria que uns bracinhos tão pequenos e umas mãozinhas tão frágeis poderiam dar um empurrão tão forte?
Muita gente diz — amigos e conhecidos da nossa geração — que não se aventura a ter filhos nesta altura por causa da crise, pela falta de dinheiro, pela distância dos seus pais. Dizem que precisam de ter boas condições financeiras e um emprego estável para poder pensar em ter filhos. Mas num tempo em que um emprego estável e boas condições financeiras são uma memória do passado e uma utopia do futuro, num país onde a “nata da nata” é exortada a emigrar para deixar vagos os espaços para os ladrões, esperar por um emprego estável e bem pago para ter filhos é decidir de antemão que os genes não serão passados para novas gerações. Porque, se assim, for — e duvido que seja — só daqui a vinte anos é que veremos um incremento na taxa de natalidade; e os pais desses bebés terão todos cinquenta anos. Não — não aceito esses argumentos: o motivo real que subjaz à decisão de não ter filhos é a incapacidade que uma geração a quem nada faltou, que nunca teve medo de nada e por nada teve que lutar, tem de abdicar do seu pequeno conforto e de avançar com a sua própria vida e fazer aquilo que os seus pais fizeram com menos dez anos de idade: criar as suas próprias famílias.
A nossa vida não estava, de todo, organizada. Cheios de qualificações académicas obtidas em Universidades de qualidade e vontade para trabalhar — mas sem trabalho algum, nem tampouco perspectiva de o obter em breve —, íamos andando, cada um em casa de seus pais, a namorar aqui e acolá como no tempo do Liceu. E, um dia, a vida começou a andar e o relógio a fazer tique-taque. Dentro de poucos meses seríamos pais. Tudo aconteceu rapidamente porque a fúria com que nos deitámos à vida não tinha precedentes. Parecia que tudo o que fizéramos antes não era nada.
O dinheiro continua a ser (e certamente será durante ainda muito tempo) um bem escasso — mas demos a volta, estamos a dar a volta. Compramos roupinhas e outras coisas em segunda-mão. Os amigos e a família dão as ajudas que podem. A casa onde vivemos é emprestada por familiares (uma casa que a crise não ajuda a vender). Fazemos contas, somos frugais e retirámos das nossas vidas o supérfluo para nos concentrarmos no essencial. A minha mulher está dedicada a ser a melhor mãe do mundo. Eu estou, finalmente, a trabalhar naquilo que me move e apaixona profissionalmente. Ganhamos pouco, vivemos com uma certa magreza — mas nada falta ao nosso pequenote. Somos felizes. Quem julga que os bebés se criam com dinheiro está enganado: os bebés criam-se como se fazem — com amor. Se se começar por aí, a luta, a força e a coragem que um pequenote nos vai buscar às tripas há-de encontrar algures tudo o mais que for necessário.
E a vida foi avançando. Mas foi avançando rapidamente e para lado nenhum. A falta de perspectivas de emprego ou trabalho em Portugal, a riqueza de um país desbaratada em asfalto e monumentos nacionais em forma de derrapagem orçamental e a “crise”, tudo isso nos foi — lentamente — roubando o sonho de sermos pais, nem que fosse de um pequeno solista, já nem pedia o meu trio de clarinete, piano e violoncelo.
Um dia a minha mulher disse-me que estava grávida. Sem planos, sem perspectivas, munidos de um apurado sentido de improviso decidimos avançar, decidimos ser pais. Afinal, a decisão estava tomada e, enfim, materializara-se.
Hoje, o nosso pequenote tem três meses e é a maravilha mais perfeita que existe. A vida mudou radicalmente e o lento resvalar para a “Angst” de quem não tem nada para fazer e está à espera que aconteça alguma coisa (não obstante os melhores esforços para ser pro-activo) parece ser uma coisa do nosso passado. Lutar nunca me pareceu tão material e humano, nunca me pareceu tão concreto. Quem diria que uns bracinhos tão pequenos e umas mãozinhas tão frágeis poderiam dar um empurrão tão forte?
Muita gente diz — amigos e conhecidos da nossa geração — que não se aventura a ter filhos nesta altura por causa da crise, pela falta de dinheiro, pela distância dos seus pais. Dizem que precisam de ter boas condições financeiras e um emprego estável para poder pensar em ter filhos. Mas num tempo em que um emprego estável e boas condições financeiras são uma memória do passado e uma utopia do futuro, num país onde a “nata da nata” é exortada a emigrar para deixar vagos os espaços para os ladrões, esperar por um emprego estável e bem pago para ter filhos é decidir de antemão que os genes não serão passados para novas gerações. Porque, se assim, for — e duvido que seja — só daqui a vinte anos é que veremos um incremento na taxa de natalidade; e os pais desses bebés terão todos cinquenta anos. Não — não aceito esses argumentos: o motivo real que subjaz à decisão de não ter filhos é a incapacidade que uma geração a quem nada faltou, que nunca teve medo de nada e por nada teve que lutar, tem de abdicar do seu pequeno conforto e de avançar com a sua própria vida e fazer aquilo que os seus pais fizeram com menos dez anos de idade: criar as suas próprias famílias.
A nossa vida não estava, de todo, organizada. Cheios de qualificações académicas obtidas em Universidades de qualidade e vontade para trabalhar — mas sem trabalho algum, nem tampouco perspectiva de o obter em breve —, íamos andando, cada um em casa de seus pais, a namorar aqui e acolá como no tempo do Liceu. E, um dia, a vida começou a andar e o relógio a fazer tique-taque. Dentro de poucos meses seríamos pais. Tudo aconteceu rapidamente porque a fúria com que nos deitámos à vida não tinha precedentes. Parecia que tudo o que fizéramos antes não era nada.
O dinheiro continua a ser (e certamente será durante ainda muito tempo) um bem escasso — mas demos a volta, estamos a dar a volta. Compramos roupinhas e outras coisas em segunda-mão. Os amigos e a família dão as ajudas que podem. A casa onde vivemos é emprestada por familiares (uma casa que a crise não ajuda a vender). Fazemos contas, somos frugais e retirámos das nossas vidas o supérfluo para nos concentrarmos no essencial. A minha mulher está dedicada a ser a melhor mãe do mundo. Eu estou, finalmente, a trabalhar naquilo que me move e apaixona profissionalmente. Ganhamos pouco, vivemos com uma certa magreza — mas nada falta ao nosso pequenote. Somos felizes. Quem julga que os bebés se criam com dinheiro está enganado: os bebés criam-se como se fazem — com amor. Se se começar por aí, a luta, a força e a coragem que um pequenote nos vai buscar às tripas há-de encontrar algures tudo o mais que for necessário.
fp









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