24.6.09

espelhos e reflexos #23

Vejo muitas vezes o eléctrico passar em frente, numa vertigem de nostalgia. Na imortalidade simbólica que tatuará as coisas do mundo com o meu nome, relembro as corridas que amiúde fazia na esperança do o apanhar na zona da Reitoria. A vida dividia-se entre alcançá-lo ou não. Nunca vi dicotomia que me representasse, inequivocamente, os meandros da minha existência. A dúvida acaba por não ser se existo ou não, quanto muito se consigo utilizar os meus membros para acompanhar o eléctrico. Por conseguinte, segue a ideia de que não posso negar a vida enquanto o eléctrico enfrentar o atrito dos carris. A soma dos nossos medos e vícios concorre com a velocidade do eléctrico. Quando perdemos a capacidade inata de o acompanhar, atrofiamos, e os músculos entorpecidos são o grito de debandada para a desintegração existencial – isto é, supondo a existência como válida, e não uma falácia de observação dos nossos sentidos (existem de facto?) tantas vezes agentes de camuflagem.
Correr é a solução. O eléctrico a meta. Contemplemo-nos, portanto, quais Carlos da Maia e João da Ega, vencidos que foram da vida, correndo em funções de estiramentos das cordas dos relógios. Lado a lado com o eléctrico e vencendo o atrito. Sempre vencendo o atrito.




fs

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2 Comments:

Blogger João Campos said...

Grande texto, camarada.

E fizeste-me lembrar esse belo romance que é Os Maias, com esse fabuloso momento da corrida dos "vencidos da vida" enquanto discutem quão inútil é correr por o que quer que seja. Enfim, releitura para o Verão, provavelmente.

Abraço.

2:36 PM  
Blogger Dr. Serra Leite said...

A saudade e a traquinice, mas essencialmente outro tempo. Isto me faz lembrar esse "Fado do Eléctrico" que narrais. Ele, que exibe o seu amarelo ao trilhar essas linhas enferrujadas, preservando a tradição invicta e partilhando História com turistas. A sua nostalgia que prevaleça, mas que nela se eleve o positivismo da alegria de estar vivo e das recordações que acorda. Não pereceis ao estereotipado discurso de velho porque nessa corrida, estai ciente que apanhareis esse eléctrico, que no último segundo agarrareis o ferro do corrimão de trás e novamente o Porto contará a sua história.

Com toda a estima, caro fs.

11:19 PM  

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