15.6.09

A tropa.

João Gonçalves escreve o seguinte no Blogue de Direita:

O fim do serviço militar obrigatório (SMO) representa um dos maiores disparates da decisão política oportunista nestes trinta e tal anos de regime. A passagem, ainda que efémera, de milhares de jovens portugueses pela "fileiras" nunca fez mal a ninguém. Pelo contrário. Se, como assinalou Cavaco, falta espírito de sobriedade, de missão e de mérito (não a meritocracia dos liberalóides e dos parvenus que "subiram" à custa do regime) à sociedade portuguesa, entre outras circunstâncias, à falta de um SMO se deve. Um SMO que incuta aos jovens um módico de responsabilidade e de disciplina, de respeito por quem se deve ter respeito e de compreensão pelo valor da verdadeira autoridade, aquela que é despojada de tiques autoritários mesquinhos e que se impõe por si mesma. As escolas estão no estado em que estão. As universidades, cheias de corvos bêbados, é o que se vê.

Tenho sérias dúvidas de que nas fileiras da hierarquia militar não existam os tais "tiques autoritários mesquinhos". A avaliar pelos exemplos que conheço, quer pessoalmente quer por pessoas cuja opinião tenho em consideração, diria precisamente o contrário: é na hierarquia militar, onde há autoridade por causa das divisas que se ostentam nos ombros, que se podem encontrar os melhores exemplos de "tiques autoritários mesquinhos". Adiante. Tendo nascido em 85, pertenço à geração que viu desaparecer o Serviço Militar Obrigatório. Nem tive de ir à "inspecção", ou à alucinação que alguma alma iluminada apelidou de "Dia da Defesa Nacional", que por aquilo que sei, parece uma tentativa de lavagem cerebral colectiva. Bastou-me ir à Câmara Municipal de Odemira, onde me registaram e perguntaram se queria ser voluntário para "a tropa". Ao que respondi "não".

É provável que a passagem pelo SMO nunca tenha "feito mal a ninguém". Mas não acho que deva ser o SMO a ter a responsabilidade de incutir "um módico de responsabilidade e de disciplina". Isso cabe à educação dos pais e à escola - e esta, se está no estado em que está, não é por causa do fim do SMO. Quanto aos universitários "corvos bêbados", caro João, digo-lhe com todo o respeito que o estereótipo está demasiado batido. E a comparação não serve: fiz demasiadas viagens nas noites de sexta e nas tardes de domingo em regionais e intercidades cheios de "mancebos" bêbedos a latas de Sagres que custam um euro e vinte no bar do comboio. Acredite que naquela companhia, nenhum desses "corvos bêbados" de que fala se sentiria deslocado.

Quanto ao SMO, tenho apenas a dizer que o regime de voluntariado faz todo o sentido. Em tempo de paz, só pega em armas quem quer. Eu não fui voluntário, e confesso, recorrendo sem pudor ao argumento dos fracos: passei muito bem sem a humilhação que a minha péssima compleição física me iria trazer na "tropa". É uma posição egoísta e mesquinha, eu sei.

john

0 Comments:

Post a Comment

<< Home