15.12.09

Do estado do tempo

Dizem que há possibilidade de queda de neve na minha aldeia. Acho indecente haver sequer a possibilidade de nevar na minha aldeia quando não há qualquer possibilidade de eu lá estar para ver, caso a primeira possibilidade se verifique. Por outro lado, espero que não aconteça como da última vez que previram neve para lá: em Monchique tiveram neve, na aldeia ficámos com granizo do tamanho de ovos de perdiz. Ficou tudo branco, sim, mas não é a mesma coisa.

Apenas andei debaixo de neve uma vez, numas férias que passei na Dinamarca (e, de acordo com os meus amigos dinamarqueses, tive muita sorte por ter visto neve por lá, pois mesmo eles não a viam há imenso tempo). Ficou tudo branco, mas não deu para mais. Leia-se, não deu para fazer um boneco de neve, para deslizar ladeira abaixo num tobogã (pergunto-me se algum habitante de Lisboa terá um tobogã? Na aldeia sei que ninguém tem). Ou na câmara-de-ar de um pneu de tractor, vá, que é a versão mais rústica, mas que continua a permitir bloppers fantásticos. Também não deu para fazer uma bola de neve e atirá-la à cabeça de alguém, o que foi manifestamente uma pena. Enfim, foi apenas uma amostra de neve feita à medida para deslumbrar um turista alentejano que nunca na vida tinha visto neve (não, aquela ocasião há quatro anos em Lisboa não contou - não era neve, era chuva, digamos, mais condensada). De qualquer maneira, neve - em amostra ou em dimensão e textura suficiente para a produção manual de projécteis - é sempre melhor do que granizo, seja este de que tamanho for.

Dizem-me também que é possível que neve em Lisboa. Gostava. Uns quinze centímetros de neve, para não abusar também. Ia para a varanda ver os carros patinarem pela avenida abaixo, que ela tem inclinação para isso, ou ouvir a capital do país ficar parada debaixo de um manto branco. Ia ao quintal fazer bolas de neve, muitas bolas de neve - atiraria algumas pela janela, enquanto gritava "headshot!", à boa maneira do jogo Unreal Tournament (uma vez geek...). Outras, guardaria no congelador, como fazia o Calvin, para as atirar em Julho (e tornar a gritar "headshot!"). Seria uma forma diferente de passar uma quarta-feira. E finalmente todas aquelas pirosas decorações de Natal com bonecos de neve, flocos de neve e cristais de gelo fariam sentido.

Falando em decorações de Natal. Os meus vizinhos de baixo colocaram a árvore de Natal à janela. Eu já acho a árvore de Natal um objecto de gosto discutível, quanto mais metê-la à janela, para a vizinhança toda ver. É uma árvore de Natal convencional, de plástico, a fazer as vezes daquele tipo de pinheiros em forma de cone, que raramente se vêem cá em Portugal. Aqui em casa não temos árvore de Natal, porque nenhum de nós se dispôs a isso (e também porque, de resto, nenhum de nós passará a consoada aqui). Mas também não faria um pinheiro. Uma vez que aqui vivem três alentejanos de gema, sugeri fazermos um "chaparrinho de Natal", o que seria mais original e também mais "nacional". Trazer um chaparro para Lisboa - mesmo um pequenino - é que seria um sarilho, pelo que a ideia deverá ser abandonada. Também nunca vi chaparros de plástico, o que para todos os efeitos acho indecente. Gosto muito dos países e dos povos nórdicos, e provavelmente serei a última pessoa que os caros leitores irão ver a dizer mal de noruegueses, dinamarqueses, suecos, finlandeses ou lapões (é assim que se diz?). Mas isto de importar as tradições nórdicas todas não tem muita piada, convenhamos.* Porquê um pinheiro e não um chaparro, um castanheiro, um medronheiro? Até mesmo um eucalipto, que pode não ser de cá mas é uma praga (e cheira bem que se farta). Porquê decorações com bonecos de neve e renas e o diabo a quatro quando não temos cá nada disso? Aliás, estou plenamente convencido de que a esmagadora maioria dos portugueses nunca sequer viu um veado vivo, quanto mais uma rena. Enfim, quando a isto das tradições vale-me a minha avó, que me dará alguma coisa pelo "Menino Jesus". Eu não ligo ao Natal nem à religião, mas gosto muito de tradições. Cumpra-se esta, que já não perco a época.

john

*Por outro lado, ainda não decidi se acho aquele anúncio do Licor Beirão divertido ou simplesmente estúpido. Sabem do que falo: daquele spot televisivo em que a garrafa do (péssimo) licor empurra um bacalhau com um capacete viking por um alçapão abaixo. Se o Licor Beirão chegar ao estatuto de "bebida nacional", creio que vou pedir cidadania na Rússia ou no estado do Tennessee.

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