29.6.10

A independência #6

João,

muito provavelmente Mondrian pintaria com o dinheiro de um mecenas. Numa época em que o Estado não desempenhava as funções de formação que tem hoje, naturalmente o dinheiro viria de um mecenas. Mas isso apenas vem confirmar o meu ponto, que é o de que já nessa altura quem financiava achava que a criação artística era uma mais-valia social e/ou individual. Uma das duas, ou as duas em simultâneo. Logo, digna de apoio. É precisamente o que eu acho hoje.

Quando digo que o Porto é carente culturalmente, não estou a dizer que não há regiões que o sejam mais. Antes pelo contrário. Apenas estou a dar um exemplo contextualizado em que um Teatro (financiado e só assim) contribui para a afirmação cultural (digo cultural no sentido nerd, assumidamente) de uma cidade. Havendo regiões muito mais carentes (e obviamente que há), isso só vem ao encontro do meu argumentário. O Estado deve apoiar as manifestações artísticas que o sejam segundo uma definição (sempre discutível, mas clara e assumida), em todo o país e de forma a que a fome passe das novelas da tvi até chegar ao que verdadeiramente interessa.

Eu também acho que tudo são manifestações culturais e que é muito difícil definir o que é arte e o que é o lixo-comercial. É evidente que nessa afirmação estou a fazer juízos de valor. Mas, todos sabemos, que as definições não são assim tão discutíveis. Os cânones existem e são razoavelmente consistentes. Todos sabemos que o Beckett é mais complexo do que a Gaiola das Loucas - não me quero deter em exemplos concretos, mas no caso de La Feria estamos mesmo a falar de teatro mau, que extravasa da mera consideração de estilo. João, é claro que é difícil demonstrar cartesianamente por que razão um musical do La Feria é menos "cultura" que À Espera de Godot do Beckett. Agora isso não impede que todos saibamos que assim é. E, de facto, é. E eu entendo que o Estado tem a obrigação de subsidiar mais o Beckett do que o La Feria (admitindo a hipótese de que era competente no estilo musical, que não é). Aliás, não ser subsidiado não implica que não se seja apoiado, basta pensarmos de que forma o teatro Politeama lhe foi cedido, sem que ninguém saiba as condições. Para não falar na trafulhice que foi o RIvoli no Porto.

Por certo que teremos uma conversa muito interessante sobre o financiamento das Universidades. Também tenho algumas coisas a dizer sobre esse assunto. Mas neste contexto estou apenas a dizer que ninguém exige à Universidades que as propinas paguem os custos. E bem.

jtf

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