21.6.10

O ano da morte de José Saramago.

um país representado por vermes. um país onde o presidente da república não percebe o significado da cultura. um país onde o presidente da república não percebe a importância da língua, como único e mais alto valor desta terra. oito séculos. o nosso valor mais alto é o verbo. sempre foi. um país onde o presidente nada percebe de nada e com nada se alimenta e alimenta os que o rodeiam. nada percebe e nada perceberá. a vista cega-se-lhe perante o calhau que lhe cobre os ombros. que país este que não se representa perate o sucumbir do campeão do mundo que em prosa se e nos navega. um país onde nos excitamos em orgasmos embandeirados, e nenhum voo mais prosaico nos traz um qualquer silva que nos mereça respeito e se cubra de dignidade. envergonhar-me-ei sempre que se disser o seu nome. envergonhar-me-ei perante tal vilania. é baixo. é pequeno. perante tal cenário, nada mais me restará do que procurar outro lugar para viver. talvez um pedaço de terra em lanzarote. talvez.

jtf

9 Comments:

Blogger João Campos said...

No entanto, achas mesmo que Saramago faria questão de que Cavaco fosse lá velar-lhe o corpo?

12:25 AM  
Blogger João Teago Figueiredo said...

acho que não. mas isso em nada impede o que eu disse. abraço

1:00 AM  
Blogger João Campos said...

Não, claro que não. Simplesmente acho que Cavaco se encontrava numa "lose-lose" situation. Se fosse ao funeral, era acusado de hipocrisia e de aproveitamento político de um funeral de alguém que desprezava, e que o desprezava. Não indo, os mesmos (olha o Louçã, por exemplo) criticam-no por falta de sentido de Estado, como se algum dos 230 (?) trastes com assento na Assembleia soubesse o que é sentido de Estado. Deste ponto de vista, acho que a decisão de Cavaco exigiu muito mais coragem.

De resto, o presidente da Assembleia da República, que é a segunda figura de Estado, também não esteve presente. Por que motivo ninguém fala disso também?

9:35 AM  
Blogger João Teago Figueiredo said...

Concordo com a tua análise. Mas acho que o PR tinha que estar por razões inerentes à sua função. Ali, nem Saramago nem Cavaco se limitam às pessoas que são. Ambos têm uma existência que ultrapassa a sua personalidade. Ali estão em causa, o escritor e o Presidente da República. Desse ponto de vista, nenhum deles se limita no cidadão. Assim, o PR representa a vénia que a nação faz a um escritor daquela dimensão. É verdade que Jaime Gama também não esteve presente, a minha crítica também se pode aplicar a ele, mas como Gama não esteve mais importante era estar Cavaco. E as duas funções têm naturezas diversas, e a da Presidência é fundamentalmente a representação.

10:33 AM  
Blogger João Campos said...

Tens razão. No entanto, continuo a considerar que a posição de Cavaco foi mais honesta, sobretudo quando o que mais se viu foi iletrados - com Sócrates à cabeça - a tecerem loas a uma obra que suspeito nunca terem lido. Ou a Louçã, o demagogo-mor do regime, sempre pronto a fazer o aproveitamento político do caso "Cavaco", quando seria o primeiro a atirar a pedra caso ele lá aparecesse - e cujo sentido de Estado é tão apurado que nem numa ocasião destas foi capaz de se apresentar de luto (não ter ido de All Stars calçados já deve ter sido uma sorte). No fundo, tanto o desprezo mútuo de Cavaco e Saramago como o aproveitamento de Louçã ou as vacuidades de Sócrates são um bom espelho do país que temos. Saramago terá sido um grande escritor, um extraordinário escritor - não li, mas nem sequer me passa pela cabeça discutir isso. Como pessoa, era porém tão pequenino como Cavaco, Sócrates ou Louçã. É a vida.

11:04 AM  
Blogger João Teago Figueiredo said...

Não ponho as coisas nesses termos e acho que o único que foi pequenino aqui foi Cavaco. Ler ou não ler a obra nada tem que ver com as funções e as atitudes adequadas às situações. Portanto, se Sócrates leu ou não a obra de Saramago, só ele sabe e fez muitíssimo bem em dizer o que disse. Louça exagerou, mas, no fulcro, tem razão. Não acho Saramago pequenino como pessoa. Nem percebo porque chegas a essa conclusão. Mas estou aberto a tentar perceber. Abraço.

11:50 AM  
Blogger João Campos said...

A minha avaliação a Saramago "pessoa" é mais ou menos irrelevante (o Saramago "escritor" não posso avaliar por motivos óbvios).

Tens razão quando afirmas que ler ou não ler a obra nada tem que ver com as funções e atitudes a elas adequadas - mas não consigo deixar de me rir com a figura a que algumas aves raras se prestam, como sempre nestas ocasiões. Como não consigo deixar de achar curioso o circo - a ministra a voar para Lanzarote, a discussão sobre onde ficam as cinzas - se lá na ilha, se em Lisboa, se na aldeia dele, se debaixo de uma pedra num qualquer jardim de Lisboa -, a presença ou ausência de Cavaco, etc.

Mas tudo isso acaba por valer muito pouco; como dizia uma colega de blogue no Delito, a grande homenagem que se pode fazer a Saramago - quem o admira, claro está - é lê-lo. O resto é uma festa que, muito sinceramente, duvido que o senhor apreciasse. Abraço.

12:33 PM  
Blogger João Teago Figueiredo said...

Epá, concordo com tudo tudo. Tudo. Um Abraço.

12:35 PM  
Blogger João Campos said...

No fundo, quem tem razão - por uma vez, vá, sejamos generosos - é o Eduardo Pitta: "(...) Um funeral é um acto privado. Bem andou a família Sousa Tavares quando (vai fazer seis anos daqui a dias) reservou as exéquias de Sophia de Mello Breyner Andresen ao restrito círculo familiar."

12:57 PM  

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