30.11.10

O Primado do Primarismo

Já é curioso quando uns acusam os outros de primarismo ou, mesmo, de «confusão de conceitos» só porque os primeiros discordam (e bem) politicamente dos segundos. Quando é António Nogueira Leite (ANL) a fazê-lo, torna-se burlesco. Leite é, provavelmente, o blogger mais bull do habitat Português, e o arguente mais acalorado da nossa praça (isto porque Miguel Sousa Tavares, que eu saiba, não é blogger), no que toca a questões económico financeiras. E é-o porque parte do pressuposto - duvidoso -de que a Economia é meramente técnica e não há lugar à «política» neste universo. Errado. Assim, Leite começa por enunciar (Prós-e-Contras de ontem): (i) «Medina Carreira esteve superiormente enervado e sem a sua costumeira eficácia e os dois Joões, Confraria e Ferreira do Amaral, quase anulados pela confusão reinante. Daniel Oliveira, transformado pelo regime numa espécie de banda residente de tudo quanto é versão lusa de talk show deu o mote. Confundiu conceitos, maltratou a realidade e impediu que do debate surgisse um módico de esclarecimento.»; (ii) «O professor de Coimbra, uma notável versão particular do Keynesianismo primitivo serviu de anti-climax à gritaria do senhor Oliveira.»

Ora, por partes:

(i) O facto de Medina Carreira estar superiormente enervado é o seu Estado Natural. E compreende-se, porque é difícil conviver com o facto de ter sido um Ministro mediano e ao mesmo tempo estar convencido que foi o único Ministro das Finanças genial da História Moderna Portuguesa. Compreende-se. Depois, «quase anulados pela confusão reinante» - não sei de que debate está a falar ANL. Deve ter ficado surdo pela histeria quase pré-adolescente com que Miguel Morgado, bem ao estilo alarde de Medina Carreira, seu Mestre, aludia - ele sim, de forma absolutamente primária e básica -, com argumentos de trazer-por-casa, varrer e deitar fora. Para não falar de um João Confraria que, construindo o argumento inicial de que sendo nós Portugueses temos que tomar as decisões da UE «como um dado» (palavras dele), faz com que a vontade de discutir o que quer que seja com este senhor se esgote num ápice. A seguir, faz uma adjectivação do Daniel Oliveira que facilmente poderíamos fazer de Medina Carreira e tantos outros. Mas mais curiosa é a argumentação em si; o facto de Daniel Oliveira ser convidado para todos os fóruns, significa - no entender de ANL - que este passa a ficar desprovido de argumentação. Como se a acumulação de presenças em debates televisivos operasse uma espécie de biópsia argumentativa no Daniel. Ora, este pressuposto é - como está bom de ver - tão primário e infantil que roça a mera puerilidade. Já na frase «Confundiu conceitos, maltratou a realidade e impediu que do debate surgisse um módico de esclarecimento», juro que pensei que se estava a referir a Miguel Morgado.

(ii) É sempre curioso quando ao invés de contrapor a argumentos outros argumentos, se colam rótulos para boicotar a discussão. Mais, primário é o argumento primário de adjectivar de keynesiano primário quem tem argumentos diferentes dos nossos.

Disse.

jtf

7 Comments:

Anonymous john said...

João, (também) nesse aspecto as coisas estão equilibradas. Se de um lado atiram com o keynesianismo, do outro lado atiram com o "neoliberalismo". Ambos os termos são a versão moderna dos clássicos "fascista" e "comunista" e, em termos de debate, significam precisamente o mesmo: nada.

Abraço.

10:39 PM  
Anonymous Mr. Brown said...

"Se de um lado atiram com o keynesianismo, do outro lado atiram com o "neoliberalismo"."

John, não concordo. Os keynesianos são os primeiros a afirmarem-se como tal. Já quanto ao neoliberalismo não há ninguém que diga defender uma prática económica que possa ser contida nesse conceito - não o poderia dizer, pois o conceito mete num mesmo saco todo um conjunto de posições diferenciadas (é tipo: discordas de mim, a tua posição está à direita da minha, és neoliberal).

Mas com o keynesianismo há um problema muito comum nos dias que correm: quase todos os que são de esquerda dizem-se agora keynesianos porque está na moda. Paul Krugman, outro que é normalmente citado mas só no que convém, é, certamente, exemplo máximo do que é ser um keynesiano moderno (por oposição ao keynesianismo primitivo, digamos). Eu não concordo com tudo o que Krugman escreve, mas economicamente falando o homem é muito, mesmo muito, bom. Contudo, Krugman é o tipo que já referiu que Portugal e Espanha, estando no euro, têm um problema de competitividade que teria como única solução um ajustamento salarial entre a 20 a 30%. Krugman é o tipo que defende que os alemães, não os portugueses, devem estimular a procura interna. Etc...
Se percebermos Krugman, percebemos que há nuances com implicações significativas entre o seu pensamento económico e aquilo que os cainesianos tugas defendem.

Resumindo: há quem tente meter no saco do neoliberalismo quem nele não deve ser metido. Há quem se tente meter no saco do keynesianismo quando dele não devia fazer parte. É toda uma diferença. O objectivo do primeiro caso é retirar credibilidade ao visado, o objectivo do segundo caso é aumentar a credibilidade das políticas defendidas pelo sujeito em causa.

Abraço

12:36 AM  
Blogger João Teago Figueiredo said...

Meus caros, como está bom de ver no post original, não estou muito de acordo convosco. Primeiro, a colagem de rótulos - nesse programa e no post em análise - foi feita por um dos lados. Ninguém apelidou de "neo-liberal" niguém, ao passo que o mesmo não se pode dizer do outro lado (aliás, foi esse facto que originou o meu post). Depois, o facto de se dizer que há muita gente que é keynesiano primário em Portugal, não implica nem que esse número seja maior do que em qualquer outro lado, nem, muito menos, pode significar que a pessoa em causa (José Maria Castro Caldas) o seja. Mais, definitivamente, não era esse o caso. O que se notou foi uma agressividade estonteante no debate pela parte " mais liberal" da bancada. Fantasticamente assinalada pelo momento em que Daniel Oliveira confronta Medina Carreira com as suas próprias - desconcertantes - debilidades argumentativas.

João, tens razão. Essa troca de galhardetes acontece. É, alias, muito semelhante à dicotomia direita-esquerda. No entanto, há um factor importante. Nunca ninguém de esquerda se esquece de vincar que o é. Ao passo que a direita tem um imenso pudor em dizê-lo. O BE afirma-se como "esquerda moderna" (não estamos a discutir o conteúdo, apenas a forma), ao invés nunca o CDS ousará afirmar-se como a "direita conservadora".

Um abraço,
jtf

10:57 AM  
Anonymous Mr. Brown said...

Caro João Teago,

"a colagem de rótulos"

ao contrário do neoliberalismo, o keynesianismo não é um rótulo. E foi o professor Castro Caldas que identificou-se a ele próprio como keynesiano (o que está em linha, naturalmente, com a análise que faço dos dois conceitos e do seu aproveitamento).

"O BE afirma-se como "esquerda moderna" (não estamos a discutir o conteúdo, apenas a forma), ao invés nunca o CDS ousará afirmar-se como a "direita conservadora"."

Óptimo exemplo. O conceito "esquerda moderna" é tão vazio quanto o conceito "neoliberal". Já no CDS coexistem conservadores, democratas-cristãos e liberais. Pergunta-se é o porquê de o BE não assumir as suas origens trotskistas/marxistas. Talvez porque se o assumisse ficasse mais claro para o eleitorado que estamos na presença da "esquerda primitiva". ;)

Abraço.

1:16 PM  
Blogger João Teago Figueiredo said...

Caro Mr. Brown, boa réplica.

É verdade que o Castro Caldas se afirmou como Keynesiano, mas já não é verdade que lhe tenha adicionado o "primário", que faz com que o comentário de ANL merecesse o meu post. E, para mim, keynesianismo é, quase sempre, usado como rótulo para com aqueles que defendem o Estado e a sua intervenção.

Como disse inicialmente não quis discutir o conteúdo da expressão "esquerda moderna". O meu exemplo pretendia apenas referir o facto de que a esquerda é explicitamente de esquerda e tem orgulho em afirmá-lo. Já a direita tem pudor. Salazar terá interferência nisto, julgo. É verdade, Mr. Brown, que no CDS coexistem todas essas espécies. Tem razão. Mas também é verdade que dentro da esquerda (e do BE) existem várias variantes e correntes. Contudo - e era esse o propósito do meu último comentário - na esquerda todas essas correntes se afirmam como a Esquerda. Ao passo que na direita, ninguém o faz. Existe pudor na palavra «Direita». Quanto à primitividade do BE, sou forçado a concordar consigo que o Bloco não assume abertamente as origens trotskistas, mas o mesmo não acontece com muita da direita política. Para mal do seu eleitorado.

Abraço.

2:53 PM  
Anonymous Mr. Brown said...

Caro João Teago,

sobre a primeira parte do comentário, só frisava que ANL não qualificou Castro Caldas como keynesiano primário, mas sim keynesiano primitivo. É uma diferença que permite outra interpretação sobre o ponto que ANL pretendia marcar. E sim, o significado do keynesianismo tem sido deturpado, mas até por honra a Keynes, não significa que por isso deve deixar de ser usado.

Quanto à segunda parte do comentário, deu-me ideia para um post (o Jardim de Micróbios está-se a transformar na minha fonte de inspiração para posts de fim de semana), pelo que deixarei a resposta (que não é bem uma resposta, é mais uma reflexão sobre o tema) para post futuro.

8:45 AM  
Blogger João Teago Figueiredo said...

Caro Mr. Brown, tem razão quanto ao «primário» e «primitivo». No meu último comentário, quando disse «primário», pretendia dizer «primitivo», de facto.

Abraço.

9:16 AM  

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