21.12.10

Dez cantos

João,

#1 Confesso que tenho alguma dificuldade em conjugar o facto de determinado acto ser correcto e, ao mesmo tempo, ser demagógico. É verdade o que dizes, mas não deixa de ser interessante pensarmos que o discurso e a acção política pressupõem convencer a maioria que determinado caminho é o certo. Ou, pelo menos, de que esse caminho é preferido por esta. Se isso é feito de forma fácil ou difícil, não sei. De qualquer forma, apelar aos sentimentos e às paixões da população é, por definição, a Política. Porque, dizendo que se exacerba a paixão e os sentimentos do povo, manipulando-os para daí ganhar eleições, estamos a atropelar a circunstância de que a maioria da população as aprova, votando nelas. E a isso chama-se Democracia. Isto é, se esse exercício (apelidado de) demagógico de empolar paixões e sentimentos resulta, é porque a população o quer, porque vota nele. Logo, é o País que o legitima democraticamente.
Por outro lado, parece-me simplista colocar a questão de que a autonomia só serve para gastar e nunca para receber. Portugal é um país uno administrativamente. As receitas por via de impostos são arrecadadas em todas as regiões do país de forma relativamente semelhante (com excepção da Madeira, curiosamente). Daí resulta um bolo de receita para afectar a regiões e sectores diversos, e os Açores recebem a sua parte. Não me parece legítimo dizer que no caso dos Açores existe maior ou menor legitimidade para afectar os recursos desta forma subsidiária. Mais, o que me choca é que em Vila Nova de Gaia ou em Viseu ou no Cartaxo se gastam milhões de euros em obra pública sem que ninguém questione (e bem) a afectação de recursos, ao passo que quando Cesár o faz é acusado de falta de solidariedade. Vejamos: a Autarquia x decide gastar €3M na construção de uma via rápida ou de um pavilhão multiusos - o que acontece todos os dias por todo o País - e ninguém se sente no direito de dizer que há falta da solidariedade com o esforço nacional de combate ao défice. Porque, e bem, se entende que é uma questão de delegação de competências sufragada eleitoralmente. Já no caso das compensações salariais nos Açores não se usa o mesmo referencial. Com a agravante de que no caso Açoriano estamos a falar de Regiões Autónomas, com um grau de independência executiva bastante maior do que qualquer autarquia.

#2 Eu acredito que Cavaco não soubesse quantos cantos têm Os Lusíadas. Respondo ao teu repto: 1) Deve ser colocada, não de forma eliminatória, mas de forma a que o eleitorado conheça o candidato e o seu perfil para o cargo; 2) Pessoalmente é legítimo, como PR não. O problema está aí (já nem falo do caso Saramago).

#3 Um PR pode representar a Nação sem gostar de toda a cultura Portuguesa. Concordo. Mas o problema é que saber quantos cantos têm Os Lusíadas (ou mesmo sabendo-o - admito essa remota hipótese - mas não o ter sabido dizer naquele momento é grave para um PR) não é gostar da cultura Portuguesa, João. É saber o mínimo admissível. O problema está precisamente aí.

#4 Eu acho que quase toda a arte contemporânea feita em Portugal é de excelente qualidade. Acho que o Estado deve continuar a apoiar (nunca percebi por que é que no ensino se chama investir e na cultura se diz subsidiar, mas isso era mais outra conversa) a actividade artística. Acho que o Estado tem obrigação de aumentar o investimento na cultura. Acho que a produção artística em Portugal, desde o teatro, a pintura, as artes plásticas, o cinema (eu vejo e nunca estou sozinho na sala), a música etc, são de tanta qualidade como em qualquer outro país Europeu como triplo do investimento público. Acho que a RTP, no seu conjunto, cumpre na perfeição a função de serviço público.

#5 «Esta visão dá quase a entender que um "economista" não pode ser "culto" ou "gostar de cultura", e é no mínimo ridícula.» Sou Economia e, como se vê, gosto muito de Cultura. Os Lusíadas têm dez cantos.

Um Abraço,
jtf

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