As releituras
A propósito deste comentário do Mr. Brown.
Sempre fiz releituras. Muitas releituras. Talvez isso possa ser explicado por o meu passado. Em criança/adolescente, nunca os meus pais deixaram de me comprar um livro que eu pedisse, por considerarem que num livro, ou mesmo num álbum de banda desenhada, não estariam a desperdiçar dinheiro, mas a comprar-me algo que me permitiria aprender alguma coisa, e que ficaria sempre. Mas com tudo o que de bom tem - e tem muito, acreditem -, a vida no campo, no interior do Alentejo, tem também algumas desvantagens, e uma delas era a quase impossibilidade de comprar livros. Só a espaços, de passagem por alguma cidade com uma grande superfície, podia comprar livros. Aprendi a ler muito cedo, e, excluindo o período da parvoeira, perdão, da adolescência (15-18), sempre li muito. Mas na falta de livros novos para ler, tinha de me dedicar a reler o que já conhecia. O que explica o facto de eu conhecer metade dos álbuns de Astérix de cor.
O hábito ficou. Hoje, mesmo comprando livros com frequência (talvez com demasiada frequência), dou por mim a fazer releituras. Não considero que seja tempo perdido: diz-se que não devemos regressar aos lugares onde fomos felizes, mas creio que o perigo, no que aos livros diz respeito, é mínimo. Um bom livro merece a releitura. Um livro como The Catcher in the Rye (releitura anual), sendo relativamente curto, delicia sempre pela linguagem e pela narrativa. Obras mais densas, como The Fountainhead ou The Lord of the Rings, presenteiam-nos a cada releitura com algo que nos tinha escapado da primeira vez, com uma nova interpretação, com um novo traço numa personagem, que a faz ganhar toda uma nova luz e toda uma dimensão da qual não nos tínhamos apercebido. Foi na primeira releitura que fiz de A Irmandade do Anel que percebi que, da obra de Tolkien, as minhas personagens preferidas são também as mais invulgares: Tom Bombadil e Treebeard. Por exemplo, foi na primeira releitura que fiz de Os Maias, já longe do décimo-segundo ano (quando tive de ler por obrigação, apesar de mesmo aí ter gostado imenso do livro), que percebi quão importante é aquela longa passagem inicial, tão detestada entre os estudantes, da descrição do Ramalhete: sem ela, o final do romance é insípido, pois só ela, por contraste, nos dá a verdadeira dimensão da tragédia que se abateu sobre a família Maia. E, por exemplo, só quando reli Psion, de Joan D. Vinge, é que percebi que afinal aquele livro não ficava a dever muito à obra-prima da autora, The Snow Queen. A primeira leitura não me deu a devida dimensão do que tinha em mãos.
Mas aviso-o, caro Mr. Brown: reler alguns capítulos preferidos de Tolkien é frequentemente uma armadilha. Da última vez que o fiz, por vontade de ler n'As Duas Torres a passagem da "Última Marcha dos Ents" (a minha parte preferida tanto no livro como no filme), acabei por reler tudo daí para a frente, incluindo O Regresso do Rei e respectivos (e longos!) anexos. E que belas horas passei eu!
john









3 Comments:
Antes dos 18 também fiz muitas releituras, João. As Minas de Salomão, na versão de Eça de Queirós, é o meu Astérix e conheço-o de cor. Como outros: Sandokan; A Ilha do Tesouro; os livros de Júlio Verne. Também foi nessa altura que li os Maias, mais do que uma vez, livro que nunca cheguei a abordar no secundário porque o professor não era de cumprir o programa até ao fim (contudo pôs-me a ler poesia de Kipling e foi o mais próximo que tive de conhecer um John Keating, d'O Clube dos Poetas Mortos, real). Os Maias estará na lista dos livros que terei de reler porque sei que não apreciei devidamente todo o seu conteúdo. Depois o meu período de afastamento dos livros foi o da faculdade (salvo seja, que os da bibliografia do curso eram prato do dia). Só quando estava quase a terminar o curso é que os livros voltaram a entrar na minha vida e não mais saíram. E desde ai tem sido assim: ler, gostar, e partir para outro não voltando ao lugar onde fui feliz.
Abraço.
Júlio Verne li com gosto em miúdo, por volta dos oito ou nove anos, e nunca reli. Lembro-me um pouco de "Vinte Mil Léguas Submarinas" e recordo ainda muito bem "Volta ao Mundo em 80 Dias", com o seu final extraordinário. Se há autor que está há muito tempo a merecer a minha atenção, é Verne.
Abraço
Extraordinariamente interessante esta vossa troca de leituras. Se o tempo permitir, escreverei também sobre este tema.
Abraços
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