A Democracia, a democracia
João, só algumas ligeiríssimas notas:
1. Percebo o que dizes e confesso que talvez não me tenha expressado como deveria. Confesso, igualmente, que o meu argumentário poderá induzir no leitor a ideia de que, assim sendo, elimino o conceito de demagogia da cena política. Não é exactamente essa a minha ideia. Explico melhor: o actor político, quando usa o discurso prepositadamente exaltador de paixões e sentimentos está a fazê-lo como forma de chegar ao eleitor e condicionar a sua decisão (de voto). Assim, o facto desse mesmo decisor político se recandidatar a uma qualquer eleição e voltar a ser eleito, torna o acto demagógico como profundamente democrático. No fundo, torna-o legítimado democraticamente, se entendermos (como entendemos) que é a população a fonte do direito, da moral e da política. E acho que este facto deveria dar que pensar a quem estuda estes assuntos de ciência política.
2. O meu ponto não é o facto da família de Saramago também não apreciar a ida de Cavaco Silva. O meu ponto é que o Presidente da República deveria estar no funeral do único Prémio Nobel da Literatura de Língua Portuguesa. Especialmente num país como Portugal, um país onde o maior património cultural e económico é a Língua, e o seu poder de disseminação.
3. João, esse 'mínimo admissível' é cada cidadão que o define, obviamente. Eu definirei o meu 'conceito' de Presidente da República, tu definirás o teu e cada um definirá o seu. Aliás, a CRP dá uma liberdade muitíssimo grande (demasiado grande mesmo) para interpretações tremendamente divergentes.
4. Eu gosto bastante de arte contemporânea. Desde a música, ao teatro, à dança, ao cinema e às artes plásticas. A minha grande divergência contigo é quando dizes que os artistas vivem de 'mão estendida' ao Estado. Ora, na minha visão esse contexto de 'mão estendida' é olhar para a arte segundo um prisma errado. A Cultura é uma forma de afirmação dos povos e uma forma de tornar a massa humana de um País melhor e mais qualificada. É uma forma de projectar um Povo (enquanto entidade Constitucional) na cena internacional, afirmando-o como identitariamente diverso dos seus demais. Ora, isso é um valor económico em si mesmo. É vendável e é importante. Assim, coloco no mesmo plano o investimento em Ensino Básico com o investimento em Cultura Básica. Toda a gente diz que os artistas andam de 'mão estendida', mas ninguém diz que os professores universitários andam de 'mão estendida' quando lhes pagam os salários. É esse o meu ponto.
4.1 Quanto às tuas considerações sobre a inércia idiossincrática da comunidade, assino por baixo. Concordo plenamente contigo.
5. Isto dava uma longa conversa (prometo voltar a ela num post autónomo), mas quando digo que acho que a rtp cumpre o serviço público falo de toda a rtp. Contudo, tenho só que fazer uma nota. Dizes que a rtp faz concorrência desleal porque tem receitas públicas, mas há que dizer que para além de ter muito menos minutos por hora de publicidade do que os canais privados (imposto por lei), apenas um dos canais do universo rtp tem publicidade.
6. Quanto ao teu ponto 5.1, acho que tens razão.
Um Abraço,
jtf
1. Percebo o que dizes e confesso que talvez não me tenha expressado como deveria. Confesso, igualmente, que o meu argumentário poderá induzir no leitor a ideia de que, assim sendo, elimino o conceito de demagogia da cena política. Não é exactamente essa a minha ideia. Explico melhor: o actor político, quando usa o discurso prepositadamente exaltador de paixões e sentimentos está a fazê-lo como forma de chegar ao eleitor e condicionar a sua decisão (de voto). Assim, o facto desse mesmo decisor político se recandidatar a uma qualquer eleição e voltar a ser eleito, torna o acto demagógico como profundamente democrático. No fundo, torna-o legítimado democraticamente, se entendermos (como entendemos) que é a população a fonte do direito, da moral e da política. E acho que este facto deveria dar que pensar a quem estuda estes assuntos de ciência política.
2. O meu ponto não é o facto da família de Saramago também não apreciar a ida de Cavaco Silva. O meu ponto é que o Presidente da República deveria estar no funeral do único Prémio Nobel da Literatura de Língua Portuguesa. Especialmente num país como Portugal, um país onde o maior património cultural e económico é a Língua, e o seu poder de disseminação.
3. João, esse 'mínimo admissível' é cada cidadão que o define, obviamente. Eu definirei o meu 'conceito' de Presidente da República, tu definirás o teu e cada um definirá o seu. Aliás, a CRP dá uma liberdade muitíssimo grande (demasiado grande mesmo) para interpretações tremendamente divergentes.
4. Eu gosto bastante de arte contemporânea. Desde a música, ao teatro, à dança, ao cinema e às artes plásticas. A minha grande divergência contigo é quando dizes que os artistas vivem de 'mão estendida' ao Estado. Ora, na minha visão esse contexto de 'mão estendida' é olhar para a arte segundo um prisma errado. A Cultura é uma forma de afirmação dos povos e uma forma de tornar a massa humana de um País melhor e mais qualificada. É uma forma de projectar um Povo (enquanto entidade Constitucional) na cena internacional, afirmando-o como identitariamente diverso dos seus demais. Ora, isso é um valor económico em si mesmo. É vendável e é importante. Assim, coloco no mesmo plano o investimento em Ensino Básico com o investimento em Cultura Básica. Toda a gente diz que os artistas andam de 'mão estendida', mas ninguém diz que os professores universitários andam de 'mão estendida' quando lhes pagam os salários. É esse o meu ponto.
4.1 Quanto às tuas considerações sobre a inércia idiossincrática da comunidade, assino por baixo. Concordo plenamente contigo.
5. Isto dava uma longa conversa (prometo voltar a ela num post autónomo), mas quando digo que acho que a rtp cumpre o serviço público falo de toda a rtp. Contudo, tenho só que fazer uma nota. Dizes que a rtp faz concorrência desleal porque tem receitas públicas, mas há que dizer que para além de ter muito menos minutos por hora de publicidade do que os canais privados (imposto por lei), apenas um dos canais do universo rtp tem publicidade.
6. Quanto ao teu ponto 5.1, acho que tens razão.
Um Abraço,
jtf









2 Comments:
Para não estar a prolongar o tema em mais um post:
1) Não estou certo de ter percebido o que queres dizer. Com um café num final de tarde, talvez a coisa vá lá.
2) Como disse, percebo e aceito o teu argumento sem qualquer confusão. Não tenho a certeza de estar de acordo - acho que estou algures no meio -, mas de qualquer maneira considero o tema menor.
3) Muitíssimo grande... dentro das 7500 assinaturas. Mas nada contra,e concordo contigo.
4) Um "artista" não é equiparável a um funcionário público. Acho que até aí, estaremos de acordo. Só lamento que neste país não se faça nada sem ser às custas do Estado, mas historicamente foi sempre assim. Quanto ao resto, é uma questão de sensibilidade artística. Tu tens essa sensibilidade artística, eu não. É a vida, nada a fazer. Para ti, uma "instalação" do Pedro Cabrita Reis será arte. Para mim, será lixo. Não critico o teu ponto de vista ou gosto (possivelmente mais correcto do que o meu), mas não o entendo. Não é uma questão que dê uma discussão muito estimulante, imagino.
5) É precisamente a RTP1 que é redundante e, por isso, desnecessária. Compara as grelhas televisivas com as da SIC e da TVI, e diz-me qual é o serviço público que presta: o talk show da manhã? O talk show da tarde? O Preço Certo em Euros? As novelas, brasileiras e portuguesas? A Operação Triunfo? A única diferença de fundo, em termos de grelha, é a opção pelos concursos em horário nobre, que actualmente está afastada das grelhas dos privados, e a ausência de reality shows (também era só o que faltava). No resto, é idêntica. O mesmo se aplica à RTPN face à Sic Notícias e à TVI 24. E apesar de ter menos publicidade, continua a ter publicidade, o que continua a ser concorrência desleal para com os privados. A RTP Memória é outro buraco, enfim. Quanto à 2, ou às rádios, nada a apontar (apesar de o mesmo argumento da RTP1 poder sem dificuldade ser adaptado para a Antena 3).
Abraço e bom ano.
uma pequena nota: as receitas publicitárias da RTP, por lei, estão afectas ao pagamento da dívida (gigantesca) da empresa.
Post a Comment
<< Home