14.1.11

Sete palmos


que Cavaco seja vizinho de Oliveira e Costa, diria ser é irrelevante, puro fait divers. Pelo menos à partida (ainda ninguém é suspeito de morar ao lado de quem quer que seja). Como seria irrelevante se Sócrates fosse vizinho de Armando Vara (eu já vivi no Rato e nem por isso voto no PS). Já o resto da notícia, que recria a versão cavaquista do "Caso da Casa da Castilho" de Sócrates, parece-me ser mais preocupante, e deverá - terá - ser esclarecida rápida e devidamente. A não o ser, alguma coisa está mesmo muito errada com Cavaco.

No entanto, deixo-te o reparo de que o que dizes - sem por isso deixares de ter toda a razão - é facilmente reversível. Também se pode dizer com propriedade que quem agora levanta a lebre com Cavaco ficou quietinho, quando não defendeu acerrimamente Sócrates, encolhendo os ombros enquanto dizia, da licenciatura e da casa, que "eram coisas insignificantes". Ou dizendo que, nos casos da Cova da Beira e do Freeport, "não foi nada provado", como se a existência de ética dependesse das boas graças do poder judicial. Esse é o verdadeiro e perene legado de Sócrates: a indiferença (que ele não começou, concedo, mas ao qual soube dar volume). Da mesma forma que dizes (uma vez mais, com razão) que quem acusava Sócrates fica agora calado, quem durante anos ficou calado com Sócrates está agora de dedo em riste. No fundo, o que demonstras não é que Sócrates ou Cavaco são pouco recomendáveis, mas que toda a gente tem afinal telhados de vidro; e que a credibilidade da classe política está sete palmos debaixo de terra. De Sócrates não adianta falar agora, que curiosamente o homem até tem estado discreto, certamente à espera dos despojos; Cavaco tem à perna este caso, mais o BPN/SNL; Alegre perdeu-se por um par de espingardas, por um cheque de mil e quinhentos euros e por uma declaração de rendimentos, ou falta dela, e isto se não formos também vasculhar os arquivos da PIDE. Os outros candidatos são irrelevantes. A seguir temos os Varas e os Dias Loureiros do regime, mais os Lacões e os Relvas da vida, "sempre-em-pé" como Portas, anacronismos como Jerónimo e demagogos como Louçã. Em Inglaterra, diz-se que Guy Fawkes foi o único homem que algum dia entrou no Parlamento com intenções honestas, e ele foi lá para rebentar com aquilo. Em Portugal, ainda estamos para ter o nosso cinco de Novembro. Por mim, que venha a pólvora.

john

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