A Europa e a consciência do vazio
Nunca como hoje o continente se questionou tanto a si próprio, introspectivo, unidireccionalmente constrangido pelas doutrinas mais-ou-menos esquecidas nos manuais oleados do liberalismo ocidental. Este acto de contrição comunitário começa, nos dias de hoje, a permitir à velha Europa iniciar uma espécie de «acto refundacional» de meia-idade que, por caminhos tortuosos, reconduz a Zurique e aos «Estados Unidos da Europa» de Churchill. Este caminho para o «federalismo» só na aparência é novo. Já os próprios pais fundadores o tinham gravado nos tratados constitutivos, na celebre expressão «uma união cada vez mais estreita entre os povos europeus» - chamar-lhe povos não é um pormenor. Paradoxalmente, tendo a união política gradualmente mais estreita sido uma marca originária das comunidades, a viagem foi abortada com o processo de constituição europeia e, posteriormente, do seu sucedâneo tratado de Lisboa. Tende-se, hoje em dia, a achar que o processo de «federalismo» é uma espécie de reacção a 27 às deficiências da zona monetária euro a 17; mas, em rigor, o caminho para o «federalismo» esteve na génese do processo de integração desde o nascimento. A definição de Delors de poder tripartido, com o nível federal, intergovernamental e puro-comunitário, dá-lhe todo o corpo de que ele, «federalismo», necessita. Neste teatro entram em cena, entre outros, o BCE e a Comissão Europeia ao nível federal; o FEEF/MEE ao nível intergovernamental, a que se somam as jantaradas informais no Hotel Adlon de Berlim com o anfitrião que todos já conhecemos. Assim, este «acto refundacional» não é mais do que o regresso às origens do propósito comunitário, marcadamente solidário, no sentido do mútuo económico e político, mas sobretudo civilizacional.
jtf









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