Krugman e Esquerda
Eu achava que, depois do post do João, que já diz o que é essencial sobre o Krugman, nada teria a acrescentar. Mas entretanto fui tropeçando nalguns textos que me ‘obrigam’ a acrescentar algumas coisas (aviso à navegação: este post vai ser longo).
Sobre as baboseiras que os Camilos Lourenços da vida vão regurgitando nem vale a pena perder muito mais tempo. Afinal, os Camilos (e os Medinas Carreiras, Pulidos Valentes, Raposos e afins) pertencem exactamente ao grupo de pessoas que, se em Portugal existisse a meritocracia a que por vezes gostam de apelar, seriam imediatamente despedidas (por serem notoriamente incompetentes/ignorantes e/ou por se prestarem meramente ao papel de “vozes do dono”).
O caso da Priscila Rêgo, d’A Douta Ignorância, por ser uma das pessoas de direita que vale a pena ler (e com quem muitas vezes discordo), é muito diferente. Mas como ela também se debruçou sobre a vinda do Krugman a Portugal e sobre a entrevista que ele deu ao Negócios, e como discordo largamente do que ela disse, aqui vai:
1) Em primeiro lugar, acho que é preciso ver que o Krugman baseia todas (ou quase) as respostas que dá num pressuposto base estático e pré-definido: aquele em que a posição da Alemanha e do BCE, por ele criticada e caracterizada como profundamente errada, é a actual e é imutável. É daqui que decorre que Portugal, preso ao euro, sem opções de política monetária, ‘cambial’, ou fiscal, está numa encruzilhada em que não tem opções. E é neste contexto que surge a referência à falta de alternativas de austeridade (embora também diga que não sabe o suficiente para dizer se a austeridade actual é excessiva ou não). Mas:
a) Refere claramente que a adesão ao euro foi um erro (embora difícil de desfazer, e é por isso que não avança para a saída como opção, para já);
b) Refere também que, se as metas traçadas com o plano de austeridade actual não forem atingidas, não se deve optar por mais austeridade. Tendo conta a posição da Alemanha/BCE em relação à solução para os problemas actuais, a implicação de tal decisão parece-me óbvia: default e saída do euro.
2) Quanto aos bodes expiatórios, não percebo. Ele diz, pela enésima vez, que o que a Alemanha/BCE estão a impor é errado e complica enormemente a situação dos países periféricos (além de, como referiu noutras ocasiões, ser um caminho para o fim do euro). Se isto não é apontar culpados, o que será?
3) Krugman como messias de uma economia sem matemática é algo que só poderia esperar alguém que nunca o leu – afinal, é o mesmo Krugman que nos anos 90 escreveu um artigo no ‘American Prospect’ precisamente a referir que essa componente matemática/quantitativa era fundamental. E, de caminho, esse pressuposto de que os economistas heterodoxos tendencialmente vistos como esquerdistas têm como ponto de partida uma oposição visceral à matemática é apenas isso: um pressuposto. E errado, como se pode ver por vários ‘papers’ oriundos de correntes heterodoxas (e de esquerda): aqui, aqui, aqui, aqui ou aqui. Ou, de forma mais genérica, neste capítulo de Steve Keen ou neste ‘paper’ de David Colander.
4) Krugman como messias da Esquerda? Também não, e tendências messiânicas são mais típicas da direita. Apesar de, para um economista ‘mainstream’, estar bastante mais encostado à Esquerda que a média, qualquer pessoa que o leia sabe que ele não é propriamente o Louçã – tal como qualquer pessoa que fosse além da retórica saberia que o Obama estava longe de justificar o entusiasmo que suscitou em parte da Esquerda. Até porque é o próprio Krugman o primeiro a inserir-se na corrente New Keynesian, suficientemente diversa para também incluir economistas como Greg Mankiw (Presidente do Council of Economic Advisors da Administração do Bush II, que não era propriamente um socialista). E, ainda que acabe por chegar por diversas vezes a conclusões parecidas com correntes heterodoxas como a Post Keynesian, os pressupostos de que partem são diferentes. Agora, o que me parece extraordinário é dizer que a Esquerda que rejeita a austeridade está a fechar os olhos à realidade. Then again, muitos terão dito o mesmo quando a Argentina decidiu avançar para a recusa do pagamento da dívida – e, nos 10 anos que se seguiram, cresceram 90%, mais que qualquer outro país do continente…
sp
sp









2 Comments:
faço um like a este post. muito bom.
um abraço,
jtf
Obrigado, João! Abraço
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