20.5.12

O nosso pequeno mundo...

Algo se passa no nosso pequeno mundo. Algo que não é fácil de perceber, tão pouco de explicar. Fala-se de crise: é a conversa constante em todo o lado - entra-se em qualquer sítio e é o tema de todas as conversas nas mesas de todos os cafés. Não é uma mentira. A crise existe mesmo e é evidente que existem problemas.  Mas as estratégias de resolução não parecem ter qualquer efeito benéfico para a maioria dos cidadãos. Aperta-se e manda-se apertar o cinto às gentes e atira-se a conta para a mesa de quem não comeu a lagosta, o foie-gras ou o caviar... são as "contas à moda do Porto". Mas tal como com as contas desse género, mais cedo ou mais tarde os comensais ficam aborrecidos.
E há vozes que afirmam que as coisas ainda vão piorar mais. Parte-se do princípio de que a realidade e o destino são coisas interligadas e que não imutáveis. Parte-se do princípio que os governantes têm os seus lugares eternamente cativos não obstante a situação. E assume-se que os políticos dos arcos governativos (todos eles fundeados na falsa moderção centrista) podem sempre mentir, enganar, aldrabar e escapar no final. Há quem diga que os direitos adquiridos nos últimos 50 anos vão ser sumariamente suprimidos e que os trabalhadores viverão numa semi-escravatura inamovível. Há quem afirme como inevitável a introdução de um modelo de capitalismo selvagem e que o hiato entre ricos e pobres está destinado a ser alargado através da supressão da classe média. Mas, apesar da plausibilidade de factos e previsões há um factor que tende sempre a ser omitido nestas equações sociológicas: esquece-se a reacção das populações.
O que vemos não é inédito: aconteceu frequente e ciclicamente. E as populações, mais cedo ou mais tarde, reagem e quebram o destino que lhes querem impor como sendo inevitável. Não existe destino que não possa, em última análise, quebrado pela vontade das gentes. Sobretudo quando esse destino é uma imposição de uma minoria sobre a maioria. Em democracia existe a certeza da mutabilidade da situação política. É para isso que serve. E, se por um lado, se podem anular direitos adquiridos, certo é que o conhecimento de outras realidades e a justiça das causas não autoriza o silêncio durante demasiado tempo.
A mudança deve ser sempre uma realidade feita "work in progress"... O pau pode ir e vir muitas vezes, folgando as costas entretanto: mas a aproximação ao limite máximo de pauladas é sempre - essa sim - inevitável. E aí, onde há "fumaça", há sempre fogo.

fp

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