18.7.12

Até ao Miguel Relvas... e mais além!

Certo é que o escândalo do Ministro Miguel Relvas tem suscitado contestação — legítima, sim —, mas pergunto-me se não estaremos a ir além do necessário, ou antes, se não nos estaremos a cingir ao mínimo e esquecer o resto. O caso Miguel Relvas, com toda a indignação que gera (e eu próprio estou indignado, mas não mais do que quando estalou o caso José Sócrates, licenciado a um Domingo...), sobretudo por parte daqueles que estudaram a sério para não conseguirem empregos adequados ao seu nível de qualificações, é estranho. Magoa. Irrita. Mas é um sintoma da doença — não é a doença. A doença é mais profunda, mais aguda e mais crónica. Reflecte um estado de coisas que entristece. Reflecte até que ponto a corrupção se substituiu à rectidão. Reflecte uma realidade política em que o valor, o trabalho e a honorabilidade são condições para o fracasso político. Temos que ir mais além. Temos que perceber até que ponto é que Miguel Relvas é insignificante e mesquinho. Um político de fraca estirpe — como a maioria dos políticos que temos actualmente em Portugal. Miguel Relvas não será o pior, certamente. Mas agora notabilizou-se pelos piores motivos.
Mas se essa notoriedade é triste, mais triste considero ser a notoriedade e a relevância que os Portugueses estão a dar ao assunto. Exigem a demissão deste Ministro. Para quê? Que diferença faria nas bolsas dos Portugueses? Que diferença faria na imagem da classe política em Portugal? Não seria melhor uma mobilização mais abrangente, mais empenhada na recuperação de valores que hoje se têm por obsoletos? Não seria preferível ignorar o assunto e não desperdiçar energias com campanhas que em nada dignificam a vontade popular?
É como olhar para um sinal na pele, irregular e com várias cores e, sabendo que é sinal de metástase de um cancro severo e profundo, escolher remover o sinal apenas por motivos cosméticos... para ficar bonito na praia, quando nos colocamos ao sol, a torrar, na Praia de Albufeira. E enquanto debatemos se havemos de retirar o sinal ou não, o cancro ataca o fígado, o pâncreas, o estômago. Havemos de dar um cadáver bonito... e isso é que interessa neste Portugal climatizado, pobre e estúpido.

fp

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