13.1.09

espelhos e reflexos #11

No lar estavam todos os idosos a escutar o ruído da televisão. O companheiro dos dias. Restava-lhes a esperança e esperança não se deveria chamar pois o desfecho está tão bem delineado na conjura do tempo que deixa de ser algo a que nos podemos agarrar para ser algo que nos arrasta, qualquer que seja a vontade. Como suster a ténue esperança de jamais sepultar os corações debaixo da terra? Como enganar o corpo à vontade da morte?
O Senhor Riquinho ajeitou a gravata por cima do pijama carregado de nódoas. Que o seu apelido tem razão de ser. Rodou a moeda de ouro pelos dedos trémulos enquanto o fio de saliva lhe caía pelo queixo caído. Virou-se no seu ar aristocrático para a senhora ao lado:
- Não faz agora um ano que o seu homem morreu?
- Faz sim senhor. Que Deus o tenha no seu merecido descanso.
O Senhor Riquinho fez um trejeito de desconhecimento pela entidade omnipotente mencionada, um esgar de censura de olhos semicerrados. Prosseguiu:
- Sabe, ontem sonhei com ele.
A senhora agitou-se na cadeira.
- E ele disse-lhe alguma coisa?
O senhor Riquinho esfregou as mãos trémulas na medida do possível.
- Apareceu à entrada do meu quarto e começou a sorrir. Perguntei-lhe logo: vens-me buscar?Olha que este ainda não é o meu dia.
Ao lado da minha avó vislumbrei o ar triunfante daquela nobreza de espírito. E a moeda a brilhar nas suas mãos.
Esperança?
Esperança é o que o Senhor Riquinho tem. Não a espera certa da morte. Apenas a soma dos dias que a venceu.



fs

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