Os segundos nomes
Tenho para mim que os segundos nomes têm uma única função: indicar que, enquanto filhos, pisámos o risco com os nossos pais. Já pensei nisto várias vezes, e não consigo encontrar qualquer outra explicação. Um nome apenas é suficiente. A esmagadora maioria dos meus amigos tem dois nomes, mas eu trato-os apenas pelo primeiro - João, Ana , Liliana, etc - e em muitos casos desconheço por completo o seu segundo nome. Aliás, agora que penso nisso, nem me consigo lembrar do segundo nome de uma das minhas ex-namoradas, e a coisa não foi há tanto tempo quanto isso. Da mesma forma, estou em crer que muitos dos meus amigos não fazem ideia qual é o meu segundo nome. Até porque nem assino com ele - "João Campos" serve perfeitamente, até para documentos oficiais com a indicação "assinar conforme o B.I.". Nunca ninguém se queixou.
Por vezes acontece até o segundo nome substituir o primeiro. Ana, por exemplo, é um nome giro, mas terrivelmente banal. Conheço várias Anas que são conhecidas simplesmente pelo segundo nome - Rita, Raquel, Sofia, só para dar alguns exemplos que de repente me ocorrem. Só quando elas me deram os seus endereços de correio electrónico é que fiquei a saber que elas, afinal, chamavam-se Ana Rita, Ana Raquel e Ana Sofia. Acontece também muito com as Marias. João, por outro lado, é igualmente comum, mas sobrevive por si só - e muito raramente fica colado ao segundo nome.
Pior ainda é quando os dois nomes pertencem a géneros diferentes. Como José Maria ou Maria João. Dá ideia de que os pais não estão completamente convencidos do sexo - ou da futura sexualidade - dos filhos e, jogando pelo seguro, improvisam um nome que dá para os dois lados. Faz sentido, mas, como muitas coisas neste mundo que fazem sentido, é estúpido.
Com os pais, porém, a coisa é diferente. Neste campo, o segundo nome tem realmente uma função: indicar os níveis de fúria deles para connosco. Conheço vários casos, e dou mesmo o meu como exemplo: tanto o meu pai como a minha mãe sempre me trataram apenas por "Joã0". Alternativamente, por "filho". Quando em conversa salta um "João Pedro", pronto, está o caldo entornado, ou fiz merda ou alguém a fez por mim e eu de alguma forma devo estar envolvido ou mesmo incriminado. É impossível chamar alguém pelos seus dois nomes de forma agradável: ou se está declaradamente a gozar com a Cátia Vanessa (exemplo clássico, desculpem), ou se está irritado, furioso, capaz de estrangular. Lá em casa, "João Pedro" é sinónimo de sarilhos, fumo que indica fogo, nuvens de borrasca no céu - ou no tecto da sala, vá. É como as sirenes que indicam bombardeamentos em Bagdade - marcam a hora de recolher aos abrigos e contar as latinhas de atum que nos vão alimentar ao longo dos próximos dias.
De qualquer maneira, o segundo nome é inútil. Filhos meus - a existir donzela demente q.b. para querer ter filhos meus - dispensarão isso. Eles que sejam espertos e adivinhem a fúria pelo tom. Ou que, em alternativa, vivam num constante sobressalto. Há que dar algumas surpresas à vida, não?
john
Por vezes acontece até o segundo nome substituir o primeiro. Ana, por exemplo, é um nome giro, mas terrivelmente banal. Conheço várias Anas que são conhecidas simplesmente pelo segundo nome - Rita, Raquel, Sofia, só para dar alguns exemplos que de repente me ocorrem. Só quando elas me deram os seus endereços de correio electrónico é que fiquei a saber que elas, afinal, chamavam-se Ana Rita, Ana Raquel e Ana Sofia. Acontece também muito com as Marias. João, por outro lado, é igualmente comum, mas sobrevive por si só - e muito raramente fica colado ao segundo nome.
Pior ainda é quando os dois nomes pertencem a géneros diferentes. Como José Maria ou Maria João. Dá ideia de que os pais não estão completamente convencidos do sexo - ou da futura sexualidade - dos filhos e, jogando pelo seguro, improvisam um nome que dá para os dois lados. Faz sentido, mas, como muitas coisas neste mundo que fazem sentido, é estúpido.
Com os pais, porém, a coisa é diferente. Neste campo, o segundo nome tem realmente uma função: indicar os níveis de fúria deles para connosco. Conheço vários casos, e dou mesmo o meu como exemplo: tanto o meu pai como a minha mãe sempre me trataram apenas por "Joã0". Alternativamente, por "filho". Quando em conversa salta um "João Pedro", pronto, está o caldo entornado, ou fiz merda ou alguém a fez por mim e eu de alguma forma devo estar envolvido ou mesmo incriminado. É impossível chamar alguém pelos seus dois nomes de forma agradável: ou se está declaradamente a gozar com a Cátia Vanessa (exemplo clássico, desculpem), ou se está irritado, furioso, capaz de estrangular. Lá em casa, "João Pedro" é sinónimo de sarilhos, fumo que indica fogo, nuvens de borrasca no céu - ou no tecto da sala, vá. É como as sirenes que indicam bombardeamentos em Bagdade - marcam a hora de recolher aos abrigos e contar as latinhas de atum que nos vão alimentar ao longo dos próximos dias.
De qualquer maneira, o segundo nome é inútil. Filhos meus - a existir donzela demente q.b. para querer ter filhos meus - dispensarão isso. Eles que sejam espertos e adivinhem a fúria pelo tom. Ou que, em alternativa, vivam num constante sobressalto. Há que dar algumas surpresas à vida, não?
john









2 Comments:
Ponto um: eu sabia qual era o teu segundo nome. Ponto dois: vi o meu nome, fui a correr ver se estavas a falar mal do meu nome. Tiveste sorte!
*****
é... eu sou um gajo sortudo, sabes? :)*
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