16.11.09

O ouriço

Há coisas que não mudam, pois não foram feitas para mudar. Acontece por vezes, ao visitar a minha aldeia, sentir algo esquisito, algo surpreendentemente idêntico ao que sentia quando era criança. Talvez isso não seja assim tão surpreendente: afinal, aquela aldeia é a minha terra, o território esquecido onde nasci e vivi. Pode estar abandonada, mas continua a ser minha. O ouriço fez-me recordar exactamente isso. Mais: trouxe à minha memória recordações de um tempo distante, de uma época à qual muito poucos dos meus amigos actuais assistiram. Uma época em que o meu "recreio" não conhecia limite, pois ia tão longe quanto as estradas de terra batida alcançavam, e a minha energia para caminhar ou pedalar durava. Era uma época em que eu passava a maior parte do meu tempo no campo, entre ribeiros e árvores, em vales e no topo das colinas que nós temos por montanhas por lá. Era uma época em que os meus companheiros de brincadeira eram animais, mas não animais de estimação: se excluírmos o meu cágado, eu nunca tive animais de estimação. Falo mesmo de animais selvagens - e até mesmo o Eustáquio, o meu cágado, é um cágado selvagem domesticado. Falo de sapos e rãs, de cobras e lagartixas, de morcegos ou ouriços. E de pássaros, de aves de todas as cores e formas. As melhores eram as corujas, mas essas eram muito difíceis de se encontrar: ou se saía à noite e se esperava pela sorte, ou se encontrava um ninho. De uma vez arrombei a porta de um armazém abandonado nos limites da aldeia para me abrigar da chuva, e assustei uma coruja, uma enorme e nobre coruja cinzenta. Sapos e rãs eram fáceis de apanhar entre os matagais de juncos nas margens da ribeira. Lembro-me de uma vez ter apanhado, com o meu amigo, duas relas, que para quem não sabe são aquelas rãs venenosas de cor verde-viva que se colam a todo o lado. Eu e o meu amigo, cada um colou uma na testa, muito para desagrado da avó dele, que dizia que os bichos davam mau olhado. Como quase todos os batráquios, de resto. Cobras eram também fáceis de apanhar junto à ribeira, e lagartixas, enfim, apanham-se em qualquer lugar, por vezes até em casa. Morcegos eram mais raros, a menos que se subisse à torre da igreja. Apanhámos um em certa ocasião, acendendo a luz e usando o meu casaco de lã como uma rede - um animal giríssimo, como um rato pelado com asas. E lembro-me dos ouriços, mas eram tambem raros. Tenho uma vaga memória de o avô do meu amigo ter encontrado dois ouriços junto ao burro, e de os ter trazido dentro de um balde para nós vermos e tocarmos neles (sabia que adorávamos animais). Tudo isto voltou à minha memória quando vi o ouriço naquela noite, no passeio, a ganhar coragem para atravessar a estrada. Parei para observar: era um enorme vulto pardo coberto de espinhos. Há coisas que não podem mudar, e senti o mesmo impulso quase infantil de o ver de perto e de lhe tocar. Que engraçado era, com o focinho a espreitar naquele amontoado de espinhos castanhos e brancos. Mas não o podia deixar ali: era tarde, mas ainda havia gente na rua, e um carro podia atropelá-lo por descuido ou maldade. Comecei a mexer no ouriço, devagar, sentindo os espinhos na ponta dos meus dedos, procurando chegar perto da sua barriga. Até que senti o fim dos espinhos, e um tufo irregular de pelo debaixo da armadura. Lá coloquei os dedos, e levantei o ouriço, que não se enrolou, nem sequer se mexeu: simplesmente deixou que eu lhe pegasse e o transportasse para a erva do outro lado da estrada. Pousei-o, e a sua reacção foi enroscar-se de imediato. Mas estava a salvo.

Anos, muitos anos tinham passado desde que tinha pela última vez visto um ouriço. Mais de uma década, sem dúvida. Mas posso dizer-vos que é um dos animais mais engraçados que se podem encontrar na minha terra.


john

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