29.3.10

Deve ser uma questão de fé

Fé que eu, como é evidente, não possuo. Obama vem a Portugal este ano (quando ao certo, não sei). Conheço pessoas que estão eufóricas - sim, eufóricas - com o facto. Como se, na prática, a visita de Obama fosse mais do que uma simples visita de Estado de um presidente de uma nação amiga. Ou como se Obama fosse mais do que efectivamente é - e é "apenas" o presidente dos Estados Unidos da América. O cargo, diz-se, faz dele o homem mais poderoso do planeta (tenho dúvidas), o que explica as aspas. Mas não faz dele uma divindade, como não fez divindades de Bill Clinton e George Bush, mais broche menos guerra. Será Obama melhor que os seus antecessores? É possível, ainda é muito cedo para o dizer. Mas sim, é possível que Obama venha a revelar-se um presidente melhor que os seus antecessores, até mesmo um óptimo presidente. Mas o fervor quase religioso que acompanha o homem - repito, o homem - continua a ser estranho. Lá está: aquilo que me falta em fé sobra-me em cinismo. Tenho pena de que assim seja. Gostava de ter a capacidade de me iludir, de acreditar genuinamente em qualquer coisa, por mais transcendente ou absurda que pudesse ser. Os termos não são sinónimos: transcendente será Deus, a existir. Absurdo é acreditar que o senhor Barack é um novo messias, o salvador do mundo. Não acredito que consiga sequer "salvar" os Estados Unidos, quanto mais o Mundo. E ainda bem. De homens providenciais está este mundo (o Inferno) cheio, e é do que menos precisa. Mas o fenómeno - esse a que deram o ridículo nome de "Obamania" - continuará a encanitar-me. O que é que viram mesmo no homem? A capacidade retórica? É um dom invulgar (um que ele tem, sem dúvida), mas não diria que fosse raro ao ponto de o idolatrarem. O "talento político", se tal coisa existe? Diria ser ainda demasiado cedo, para não dizer o mais óbvio: quem é que idolatra a política? Um discurso em redor de duas palavrinhas bonitas ("hope" e "change")? Demasiado vago. Enfim, não possuo a fé. De Obama, espero apenas que seja um bom presidente, e que os Estados Unidos continuem a ser, idealmente, um país onde eu gostaria de viver*. Enfim, o que se pode (deve) esperar de um homem. Mas se ele for realmente uma figura divina, então avisem-me: a lista vai ser maior.

john

*Infelizmente, Nova Iorque está fora do mapa para mim, desde que foi aprovada aquela ridícula lei que proíbe os restaurantes nova-iorquinos de utilizarem sal nos seus cozinhados. Há limites para tudo, até para o disparate. Mais depressa ia para o Arizona.

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