15.3.10

Os lugares felizes

Normalmente, este post não teria lugar aqui, pois o Jardim não costuma albergar (da minha parte, entenda-se) textos deste género. Isso costuma entrar num certo blogue pessoal. No entanto, abro aqui uma excepção.

Não é forçoso que o regresso a um lugar onde se foi feliz seja trágico, ou pelo menos negativo. Isso, como tudo na vida ( e perdoem-me o momento La Palisse), depende um pouco dos lugares e em larga medida das pessoas. É como aquela história de se ficar amigo das ex-namoradas: para a maior parte das pessoas é algo muito estranho, para não improvável, enquanto para mim é a coisa mais natural do mundo. Acontece. Da mesma forma, eu não gosto de regressar aos lugares onde fui feliz. Até iria mais longe: Não gosto de regressar aos lugares onde fui. Onde vivi. Onde algo aconteceu, algo de significativo que tenha mudado algo em mim, por mais pequena que essa mudança tenha sido. Exemplo: desde que vivo em Lisboa já mudei de casa seis vezes. A vantagem evidente destas constantes mudanças é conseguir eliminar memórias espaciais. Ou antes, conseguir eliminar a fonte dessas memórias. O quarto onde durmo actualmente não tem qualquer ligação emocional ao meu passado. A minha irmã habitou, há coisa de um ano, uma casa onde eu já tinha morado antes dela. Todas as visitas que lhe fiz foram estranhas. Era desconfortável entrar no quarto dela, que antes fora o meu. Estava tudo arrumado da mesma maneira. Ou antes, estava tudo arrumado (porque no meu tempo a desarrumação reinava). Mas era estranho estar no quarto dela, que fora meu, e não sentir o cheiro a tabaco. Era impossível sentar-me na cama e não me lembrar - perdoem-me - de todas as fodas que aquela cama conheceu no meu tempo (e no tempo de outra pessoa). Como é impossível eu visitar uma ex-namorada em casa dela e não me lembrar de uma carrada de coisas, apesar de ter tudo resolvidinho dentro da minha cabeça, de sermos amigos e tal (a sério; sei que isto é esquisito). Há sítios que nos marcam, e como é bom de ver pelo rumo que o texto levou, parece-me a mim que é nas questões amorosas que o espaço ganha maior relevância - e é em termos amorosos que a expressão "não regressar aos lugares onde fomos felizes" é relevante. Isto não acontece na amizade. Se dois amigos de infância visitam o lugar onde cresceram, há nostalgia. Se dois ex-amantes visitam o lugar onde se beijaram pela primeira vez (sensação de facto indescritível, e, acrescento, inesquecível), há a mesma nostalgia, mas existe tambem um bocadinho de desconforto. No mínimo. Sei que ao longo deste texto entrei em várias contradições, mais ou menos óbvias, mas acho que o tema a isso é propício.

Há para mim uma excepção: um lugar onde fui feliz, ou de certa forma feliz, e ao qual gosto sempre de regressar. A minha aldeia, a aldeia onde cresci e onde vivi até aos dezoito anos. Mas convém fazer uma ressalva: eu nunca tive um envolvimento amoroso com alguém da minha aldeia, ou mesmo na minha aldeia. A aldeia é por isso um lugar neutro. E provavelmente o único lugar que a todo o custo preservarei assim. Todos nós precisamos de um refugio. De onde veio isto agora, não perguntem.

john

1 Comments:

Blogger Sophia said...

Johny johny, manda-me o teu mail para somenteisto@gmail.com faxavor...

6:31 PM  

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