Transmission
Não tenho (nunca tive) muito jeito para agradar aos outros. Isto, atenção, não faz de mim uma pessoa desagradável; quer apenas dizer que nunca tive jeito, predisposição, altruísmo - chamem-lhe o que quiserem - para fazer algo de que não gosto apenas para agradar a outra pessoa. Sou capaz de o fazer. Mas dificilmente por iniciativa própria. Isto é um traço de egoísmo, eu sei, e provavelmente será o mais negativo traço do meu (nem sempre negativo egoísmo). A verdade é que sou incapaz de me sentir confortável num espaço ou numa situação que me desagrada. Dois exemplos, que tudo se percebe melhor com exemplos: durante a minha "vida académica", e em época que Queima, os meus colegas vibravam nas noites de concerto de Quim Barreiros. Quim Barreiros é, desculpem qualquer coisa, a coisa mais burgessa da "música popular portuguesa". Ah, com os copos é do melhor. Não consigo. Consigo simular diversão, mas por muito pouco tempo - cinco minutos, dez com sorte. Não há cerveja, ou whisky, ou vodka, que me faça "entrar" num concerto de Quim Barreiros. Acontece-me o mesmo numa discoteca, o que ajuda a explicar o motivo pelo qual, ao sétimo ano de vida em Lisboa, apenas fui uma vez a uma discoteca, e foi ao aniversário de uma amiga. Não gosto do ambiente. Não gosto do preço das bebidas. Odeio a música - sim, "odiar" é o verbo correcto aqui. Dêem-me uma mesa, um Jack Daniels por menos de cinco euros (ou mais, mas só se for no Procópio), e um jazz como música de fundo, uns Joy Division, sei lá, e fazem-me feliz. Ou dêem-me um bar como o único bar que ainda frequento no Bairro Alto, onde passa regularmente Oasis e James. Gosto. Numa discoteca não ouço disto. Não tenho jeito nenhum para "dançar", e tenho uma grande noção do meu ridículo. Não sei como mexer os pés. Não sei o que fazer aos braços. Se uma namorada me pedisse - nenhuma se atreveu até à data -, eu ia com ela a uma discoteca, pagava-lhe as bebidas, "dançava" com ela (cronometrava o tempo que passaria até ela sentir vergonha de estar comigo). Mas nunca, nem por um momento, me sentiria confortável. Os meus amigos sabem disso: das poucas vezes que, finda a noite no Bairro Alto, sugeriram irmos para uma discoteca, ouviram a resposta "bom, divirtam-se então. Eu vou até casa." Sim, eu sei. Sou um chato.
Isto a propósito deste post da Teresa Ribeiro, ali no Delito. Por melhor que fosse a companhia, eu jamais entraria - entrarei - num restaurante vegetariano. Nem por me sentir desconfortável, mas por me sentir mesmo esfomeado. Não há companhia que valha a tortura da comida vegetariana. Falem do que quiserem, eu respondo com migas e entrecosto.
john
Isto a propósito deste post da Teresa Ribeiro, ali no Delito. Por melhor que fosse a companhia, eu jamais entraria - entrarei - num restaurante vegetariano. Nem por me sentir desconfortável, mas por me sentir mesmo esfomeado. Não há companhia que valha a tortura da comida vegetariana. Falem do que quiserem, eu respondo com migas e entrecosto.
john









2 Comments:
a good company would make you love the food :)
There is no company good enough for that, I'm afraid :p
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