29.6.10

A Independência #7

João: está certo. Mas, sendo assim, não há independência para ninguém. É esse o meu ponto.

Se o Teatro São João funciona muito bem com dinheiros públicos, fico contente (sem ironia), mesmo que dificilmente lá vá ver alguma coisa. O mesmo para o Teatro Viriato. Mas isso não invalida que, idealmente, a cultura devesse contar com mais apoios privados e menos públicos. No cinema, então, isso parece-me demasiado óbvio. Talvez seja utópico pensar que pudesse ser assim, estamos afinal muito longe do mundo perfeito. Isso eu também sei. Mas o João Botelho, a Margarida Gil ou o Fernando Matos Silva, mencionados nesta notícia, não são independentes, nem fazem cinema independente - vivem com os pais, passe a metáfora, e os pais pagam-lhes as bebedeiras. Cinema independente fizeram uns amigos meus lá em Odemira, que no ano passado estrearam lá no cinema da vila um filme escrito, realizado e produzido por eles, e cujos poucos apoios que conseguiu foram lá na zona. O resto saiu-lhes do corpo - e da carteira. Mais uma vez: não me venham falar em artistas independentes se os artistas, coitadinhos, vivem à custa do papá Estado. A independência tem um preço. Ou será que a malta que mencionei, tão boa e tão influente que é, não conseguiria arranjar por si apoios para fazer os seus filmes, colocá-los nas salas e convencer o público português de que são bons?

De resto, continuo a achar que na cultura, o orçamento público e as políticas culturais deviam ser regionais, ao invés de estarem centralizadas em Lisboa. E esse princípio aplica-se a imensas coisas, claro.

Mudando de assunto: é evidente que todos fazemos juízos de valor. Isso é naturalíssimo. Tal como a existência de cânones. Mas os cânones não se aplicam a toda a gente. Até porque, e esta será uma diferença muito importante, os cânones nada têm que ver com o gosto individual. É evidente que À Espera de Godot é uma obra mais complexa que A Gaiola das Loucas, e é evidente que, entre ver uma ou outra, eu nem hesito. Mas este juízo de valor vincula-me apenas e só a mim, e não tenho qualquer intenção - nem creio que fosse correcto - tornar esse juízo de valor universal, por força de lei. A verdade é que eu conheço muito mais gente que escolheria exactamente o oposto. Como conheço mais gente que prefere Miguel Sousa Tavares a Saramago, que gosta mais de ver o filme American Pie do que The Night of the Hunter, que gosta mais de ver a novela das dez da TVI do que a série Os Sopranos. E quem é que tem razão? Eu, porque tenho o cânone do meu lado? É que nem isso eu tenho: posso-te dizer com toda a seriedade, por exemplo, que considero Tolkien o maior e mais importante escritor do século XX, e este juízo de valor é tudo menos canónico. Quem tem razão, então? Eu ou quem diga que foi, sei lá, Saramago (que nada me diz), ou Vergílio Ferreira (que me diz muito), ou Hemingway, ou Kafka, ou Borges ou Beckett? Repara que mesmo fazer um programa escolar de literatura portuguesa será complexo e nunca consensual - é justo trocar-se A Aparição pelo Memorial do Convento? Qual é o critério? O Nobel? Isto é tudo tão discutível que, pessoalmente, considero sempre muito arriscado ser o Estado a decidir o que devem as pessoas ver no teatro ou no cinema, ou o que devem ler, ou de que artistas devem gostar. Se calhar o Estado deve apoiar de tudo um pouco? Talvez não deva apoiar coisa alguma? Se calhar deve apoiar a componente de formação apenas, para os mais jovens poderem aprender a, mais tarde, fazerem as suas próprias escolhas, e deixar as pessoas adultas decidirem aquilo que querem, mesmo que escolham o tal "lixo cultural"? Não sei. Eu sinto-me muito à vontade para, neste momento, estar a ler Dune em vez de, por exemplo, O Ano da Morte de Ricardo Reis. Mas não tenciono impor isto a ninguém, nem acho que tal seria correcto. Cada um que veja o que quiser - eu decido o que quero ver, ou ler.

john

Nota: post algumas vezes editado. Vou parar agora, se não até ao final do dia já o re-escrevi todo.

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