2.12.10

Esclarecimento em forma de post, que dá imenso jeito para cumprir quotas de produção em tempos desinspirados:

João e Mr. Brown: no meu comentário, eu não estava a falar do caso em concreto, até porque é contra a minha religião ver o Prós e Contras - sobretudo, como disse noutro post, quando à mesma hora dá House. Desculpem qualquer coisa, mas o Hugh Laurie nos seus piores dias dá 55-0 à Fatinha e à malta que normalmente frequenta o programa. Mas divago. O que queria dizer é que, em muitas discussões mais ou menos recentes - no mau sentido da palavra - os rótulos de "keynesiano" e de "neoliberal" servem apenas de arma de arremesso que não quer dizer coisa alguma. Eu nem sei o que é o tal "neoliberalismo" - conheço alguma coisa do liberalismo, conheço (leio) imensa gente que se assume "liberal", mas o conceito de "neoliberal" é algo difuso, até por ter uma enorme carga negativa a ele associado (corrijam-me se estiver errado, mas a expressão cresceu em popularidade no tempo de Bush, não foi?).

Já agora, convém também não esquecermos que, para boa parte da população, sobretudo da população mais jovem, ser-se "liberal" não é defender a liberalização dos mercados, defender o indivíduo e a liberdade individual acima de tudo, ter sempre Ayn Rand na mesa de cabeceira, etc. - é, sim, defender coisas como o aborto, a eutanásia, as drogas, etc. Do dizer-se na gíria "sou muito liberal" a ser-se, de facto, política, económica e socialmente, muito liberal, vai uma distância como daqui a Antares. Dêem uma vista de olhos pelos perfis do Facebook, para não irem muito longe. Conheço muito boa gente que se afirma "liberal", ou mesmo "liberalíssima!" - assim, com ponto de exclamação e tudo -, que é do mais proto-comuna que se pode encontrar.

De resto, mais importante do que debater rótulos, autocolantes e pega-monstros, parece-me a mim interessante focar outro ponto, também abordado no teu texto, João: a impossibilidade de neste país haver uma discussão no bom sentido da palavra. Um debate a sério, com seriedade, passe a redundância. Isso tanto dá para o Prós e Contras, para os programas de "paineleiros" da televisão (grande expressão do João Gonçalves), para a Assembleia da República, ou para uma conversa de café. Como se tudo fosse, no fundo, o resumo de um jogo entre Benfica e Porto. E nesse aspecto, nem o Nogueira Leite nem o Daniel Oliveira me parecem, por norma (também têm os seus momentos de lucidez), dois grandes exemplos de elevação.

john

1 Comments:

Anonymous Mr. Brown said...

Começo por concordar que o Hugh Laurie dá 55-0 à Fátima. Mas no que toca a séries televisivas (btw: the walking dead é mesmo muito bom), há muito que evito que sejam os programadores a decidir a hora a que os vejo. Já o programa da Fátima só tem gozo em directo e de preferência acompanhado no twitter (até porque no twitter não faltam hugh lauries para animar o programa da fátinha).

Quanto à expressão liberal, pode ter um significado em determinado contexto diferente do que tem na sua dimensão política-económica, não me parece problemático que assim seja. Mas a norma, até prova em contrário, é: Liberal na Europa é o mesmo que Libertário nos Estados Unidos. Se a expressão está deturpada, culpe-se quem a deturpa e não quem a usa correctamente.

"a impossibilidade de neste país haver uma discussão no bom sentido da palavra."

Se não englobar os círculos privados, concordo. Mas porque será assim? Porquê que quando os interlocutores debatem em espaço aberto os debates ficam pela superficialidade das coisas? E os blogues não conseguiram, apesar de tudo, mudar um pouco esse panorama? Ainda que, mesmo na blogosfera, o debate seja cada vez mais nulo.
Esta, só por si, era uma discussão que nos levava longe. Faço só uma ressalva: Daniel Oliveira e ANL (e podia somar Medina Carreira ou Marinho Pinto, até o próprio João Gonçalvez, não?) podem ter um estilo que não agrada a todos, mas são extremamente eficazes no debate público. E já lá dizia Thomas Jefferson: "em matérias de estilo, segue a corrente; quando estão em causa princípios, aguenta firme como uma rocha". Parece que não será difícil adivinhar para que lado corre a corrente neste momento no que se refere ao estilo a adoptar.

Abraço.

9:47 AM  

Post a Comment

<< Home