A medida do Tempo
Não há nada mais alegórico do que a relação do português com a História. Vejo - pouco surpreso - todo o movimento sebastianista do último fim-de-semana. Nevoeiro, Alcácer-Quibir, e tal. Muitas vezes vejo repetida a ideia de que Sá Carneiro era um homem de coragem, destemido, arrojado. Até determinado. Vejo, vezes sem conta, insistir-se no argumento de que a coragem é a maior de todas as virtudes políticas. Constato que o mito se criou. E quando mais tempo passar maior se insufla o balão. Há qualidades que só vemos nos mortos, as mesmas qualidades nos vivos são defeitos. Determinação passa a teimosia, coragem a irresponsabilidade. Muitas vezes, estes dois pesos e duas medidas vêm da mesma boca. Do mesmo arguente. Repetiu-se, também, que se Soares Carneiro não tivesse ganho as eleições, Sá Carneiro se teria demitido imediatamente, argumento que é usado como prova da sua rectidão e do seu carácter. Espanto-me, quando vejo que as mesmas pessoas acharam cobarde e fugitivo António Guterres em 2002. Dois pesos e duas medidas.
jtf









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