Ah, as causas
Não compreendo os movimentos pelo "comércio tradicional". Veja-se, por exemplo, esta "causa" (a Web 2.0 é prolífica em causas), tão frequentemente amplificada nos meios de comunicação social. Fala-se do "comércio tradicional" como se fosse o céu, relegando para o inferno os centros comerciais, esses antros. Atente-se na descrição:
O interior dos Centros Comerciais é delineado com ruas, que chegam a recriar fachadas de casas antigas, com fontes e cinemas. Nas suas imediações vêm-se instalados – ou em fase de instalação - os mais modernos empreendimentos imobiliários.
O resultado está à vista de todos, podendo afirmar-se que a vida citadina, caracterizada pelo ambiente cosmopolita, pela diversidade e pelo caos, foi transferida para estes Centros Comerciais.
Deve corresponder para aí à quinta esfera do inferno, mas confesso que não tenho a minha leitura de Dante em dia (desculpem lá o mau jeito). Os centros comerciais, esses marotos, atrevem-se a recriar fachadas de casas, fontes e cinemas. Que topete! Que descaramento! Mas a coisa melhora:
Os consumidores são bombardeados com todo o tipo de promoções e publicidades dirigidas a produtos que nem sempre são os melhores, acabando por prejudicar os orçamentos familiares ao comprarem o que podem e não podem, criando, assim, dificuldades para o resto do mês.
Os consumidores são bombardeados, coitados. Dos malvados centros comerciais saem uns B-52 que bombardeiam os consumidores com promoções, publicidades e, vai na volta, bombas de fragmentação e bolinhas de cuspo. Indefesos e em pânico, os consumidores correm desvairadamente para os centros comerciais, consumindo de forma frenética tudo o que podem. A sério: não ocorre a nenhuma das almas que defende esta causa que, se os consumidores optam por ir ao centro comercial e não à loja da esquina, o fazem não por causa de um qualquer raid aéreo, mas porque querem? Porque escolhem livremente fazê-lo? Porque decidem aproveitar as promoções? A sério, outra vez: porque é que, regra geral, a malta que defende estas causas e estas coisas parte do princípio de que os consumidores são todos estúpidos, caindo que nem patos em cada balela de dez segundos na têvê?
Vamos lá ver. As pessoas optam por fazer as suas compras num centro comercial porque lhes é conveniente: vão a um sítio onde encontram praticamente tudo aquilo de que precisam, de mercearias a óleo para o carro. Isto, por estranho que possa parecer, é muito mais prático do que frequentar doze lojas diferentes no bairro - se existirem as tais doze lojas diferentes no bairro - para comprar um pacote de arroz, dois bifes de vitela, uma lâmpada para a sala, duas latas de comida para o gato, uns chinelos novos que os velhos já deixam o dedão de fora, anticongelante para o carro, uma garrafa de whisky para o frio, dois maços de tabaco para o fim-de-semana, uma caixa de pastilhas elásticas (sem açúcar), um frasco de etanol para assar linguiças, o champô anti-caspa com condicionador e ómega 3, e duas postas de pescada fresca? Para além de que, salvo raras excepções, o estacionamento não é problema, e têm sempre a possibilidade de comprar, noutras lojas do centro comercial, outras coisas de que possam necessitar. Ou de que não necessitem de todo: cada um que governe ou desgoverne a sua vida como bem entender.
Para juntar à festa, há ainda o tal "comércio tradicional". Ora sucede que o comércio tradicional, salvo algumas excepções, consiste em lojas que mantém hoje o modelo de negócio que tinham há cinquenta anos (mas com mais asseio, que a ASAE não dorme em serviço). Comecemos pelos horários: de segunda à sexta das nove às sete. Sucede que, por acaso, o horário de trabalho mais comum é, justamente, de segunda a sexta entre as nove e as sete (as seis, vá, mas no trânsito perde-se sempre algum tempo). Resultado: se dependêssemos do "comércio tradicional" para aviar as mercearias, quem lucrava seriam os restaurantes, pois ninguém teria tempo para comprar uma folha de alface que fosse. Há os fins-de-semana? Pois há; mas o tal "comércio tradicional" também tem direito ao fim-de-semana (sem ironia), e por isso a partir da uma da tarde de sábado já não há nem comércio nem tradicional para ninguém. Ou seja: o "comércio tradicional" - e a malta das causas - reclama de que os centros comerciais lhe estão a roubar o negócio; mas a única coisa que os centros comerciais fizeram foi adaptar-se aos horários mais convenientes para a maioria da população, coisa que o "comércio tradicional", por definição e tradição, não estaria jamais disposto a fazer. Aliás, até há bem pouco tempo ainda se mantinha em vigor aquela esdrúxula lei que obrigava as grandes superfícies a encerrarem ao domingo, lembram-se?
Nem vou entrar na questão dos preços praticados. Espreito só pela porta: um pacote de arroz, o mesmo pacote de arroz, custa mais quarenta cêntimos na merceria que há do outro lado da minha rua do que no supermercado de uma grande cadeia que fica a cinco minutos a pé de casa. Enfim, continuemos:
Antes desta investida inesperada, o poder económico e financeiro deste sector pertencia ao comércio tradicional. A concorrência entre comerciantes fazia-se de uma forma correcta e saudável: cada um procurava melhorar as condições de venda, o atendimento e a atracção do seu estabelecimento, na tentativa de conseguir aumentar a sua cota de mercado, contribuindo, embora sem precipitações, para a modernização do comércio.
Qual é a concorrência incorrecta e prejudicial à saúde que os centros comerciais fazem ao comércio tradicional? Vendem mais produtos num só espaço? Vendem os mesmos produtos a preços mais baixos? Vendem produtos a horas que o "comércio tradicional" não está para se chatear? Pois. Deve ser isso.
A ideia de comércio e de “ir às compras” pressupõe andar na rua, por entre as pessoas e os turistas, em jeito de passeio, para respirar o ar puro, apreciar os ruídos do ambiente circundante, usufruir do sol radioso do Verão ou do sol mais tímido de Inverno, com luvas, gorro e cachecol. Parar num café à moda antiga ou numa esplanada instalada sobre a própria rua, para confortar o estômago ou relaxar uns minutos antes de retomar a procura pelas lojas. Compra-se somente o necessário, com a certeza de satisfação e de qualidade. No final, chega-se a casa menos carregado, com mais dinheiro na carteira e sem o stress causado pelo ambiente artificial dos Centros Comerciais.
Pressupõe? Então se um tipo não quiser andar na rua (sei lá, por estar a chover), e preferir andar por entre as pessoas num centro comercial? Não pode? E um tipo fotossensível, tem de gramar com as intensidades variáveis do Sol? E o ar puro, é o das ruas de Lisboa? Certo, certo, estou a gozar. Mas, caramba: por muito que eu goste - e por acaso gosto - de andar pela rua, não me passa pela cabeça impor isso a quem quer que seja. A ideia de que fala o texto supracitado é, de facto, uma "ideia de comércio". Tão válida como outra qualquer. Uma vez mais: se o "comércio tradicional" não tem capacidade para concorrer, é porque os consumidores - as pessoas, vá -, perante um e perante outro, fizeram, e fazem todos os dias, uma escolha. Ninguém as obrigou, ninguém as coagiu, ninguém lhes encostou uma pistola à nuca: elas vão aos centros comerciais porque querem. Porque lhes dá mais jeito - e isso supera o tal "ambiente artificial dos centros comerciais", de que, a título pessoal, também não sou apreciador.
Que tenha de ser um tipo que nem gosta por aí além de frequentar centros comerciais, que frequenta o talho da esquina e não o do centro comercial da vizinhança, que costuma comprar cerveja e nachos nas mercearias indianas quando metade do bairro está a dormir (ou a ver a novela) a dizer esta merda é que me faz espécie, juro.
Mas, e em jeito de conclusão que a prosa já vai longa, deixo uma dúvida: será razoável inferir que as 22.729 pessoas que aderiram à "causa" não põem, por motivo algum, os pés num centro comercial?
john









0 Comments:
Post a Comment
<< Home