29.1.12

Constatações (III) - escola da vida...

É curioso verificar que existe uma relação inversamente proporcional entre o acesso aos empréstimos que a banca foi dando aos cidadãos e o valor que a escola foi perdendo durante os últimos anos.
À medida que os empréstimos foram sendo "democratizados" - e uso esta palavra com muita liberdade... - e as pessoas se foram endividando num frenesi de dinheiro fácil para casas, carros, televisores e sofás, a escola foi perdendo o seu valor institucional, os professores passaram de "players" importantes do processo de construção de uma sociedade mais civilizada para uma posição de elo mais fraco de uma sociedade dita democrática.
Não afirmo que exista uma relação causal ou de alguma forma directa. É apenas uma constatação de uma relação que leio como inversamente proporcional. Reflicto apenas...
Hoje, com este governo admiravelmente empenhado na estabilização das contas públicas através da aplicação de medidas de inegável justiça social, através das quais aqueles que têm menos, com menos ficam e os que têm mais, com mais ficam, observo uns esforços titubeantes de inverter a relação inversamente proporcional que aqui apontei. O ministro das finanças ataca de um lado e o ministro da educação monta uns simulacros de reforma escolar, afirmando que os professores têm que ser respeitados.
Por outro lado constato que, durante o governo de José Sócrates atingimos um máximo histórico de endividamento público e privado. Ao qual foi contraposto o magnífico programa "novas oportunidades" que servia um outro simulacro, desta feita estatístico, para fingir que as pessoas, apesar de endividadas, estavam mais escolarizadas...
O mal está feito: o país está mais pobre e a escola já não ensina nada.
Portugal teve na sua história recente uma "segunda oportunidade" para entrar no clube das nações desenvolvidas. A adesão à CEE foi essa oportunidade. As comportas abriram-se e o país foi inundado com fundos comunitários para tudo e mais alguma coisa. O objectivo era desenvolver Portugal, fazê-lo convergir na direcção de um padrão de desenvolvimento comunitário. Outros países tiveram a mesma segunda oportunidade - a Irlanda, por exemplo... A diferença é que aqui construiram-se estradas e outras obras públicas, desfez-se a agricultura, a pesca e a indústria. E desfez-se a escola também. Porque era muito difícil de outra maneira... e o ideal era ter muitos licenciados a irem de A para B em auto-estradas com muitas faixas em carros novinhos em folha. Optámos pelo atalho, como bons Chicos-espertos que somos. Mas se os atalhos são mais curtos, normalmente a malta perde-se pelo caminho.
Isso serviu durante 20 anos. Hoje já não serve.
Temos estradas que ninguém consegue pagar para usar. Temos licenciados que têm dificuldades em soletrar a mais simples das palavras ou a fazer a mais simples das contas. E já não temos outra coisa se não serviços que já não servem porque ninguém tem dinheiro para os pagar e Turismo é um embuste.
A Irlanda não tem as nossas estradas magníficas. Mas não tem analfabetos. E nós temos 9% de analfabetos a correr todas as faixas etárias.
O mal está feito. Perdemo-nos pelo caminho. E não aprendemos nada - ainda hoje optamos pelos atalhos. O que são as medidas de austeridade se não um atalho desesperado (e desesperante)?

fp

2 Comments:

Anonymous Andreia Melo said...

Não poderia concordar mais. Parabéns pelo vosso blog. Beijinhos

12:08 PM  
Anonymous john said...

Para além de termos destruído a nossa via férrea - acto pelo qual todos os governos desde o de Cavaco, que começou a brincadeira, deviam pagar e muito caro.

Excelente resumo, meu caro. Não admira que se diga noutros blogues que no Jardim se escreve muito bem!

Abraço

8:25 PM  

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