26.1.12

Desafio à lógica (I)

Mais uma medida de inegável inteligência e elegância estratégica do Governo de Passos Coelho. Brilhante. Simplesmente brilhante!

O Governo anuncia o fim de alguns dos feriados do calendário civil Português.
Curiosamente, os feriados eliminados são dois daqueles que maior relação têm com aquilo que o Portugal político e simbólico representa.
A lógica da sua eliminação desafia a compreensão. O valor da supressão de um feriado, em si, desafia a minha compreensão, para ser franco...
Os feriados eliminados são o 1 de Dezembro e o 5 de Outubro, respectivamente o dia da Restauração da Independência e o dia da Implantação da República. Ambos foram revoluções estruturais do país.
O primeiro recoloca Portugal nas mãos dos Portugueses, terminando assim o período do domínio da dinastia Filipina. O segundo marca a transição revolucionária de uma Monarquia para uma República, regime que ainda hoje se encontra em vigor e que dita as regras da maioria da nossa vida política e social.
Dois feriados marcantes do calendário civil - e que vão deixar de existir e de ser celebrados. A História de Portugal, uma das coisas que os Portugueses ainda têm como fonte de pequenos orgulhos mobilizadores dos Portugueses, é assim desrespeitada e as suas memórias deixam de existir, caindo no esquecimento.
Mas há que perguntar: que benefício existe na supressão destes feriados? Será que o rendimento bruto que o Estado colhe em sede fiscal própria compensa o rendimento bruto que o Estado colheria em sede fiscal própria se as pessoas fossem às compras e passear? Será que compensa? Que lógica tem isso?
E mais: se é para eliminar feriados civis... porque não eliminar o 25 de Abril ou o 1 de Maio? Não são também feriados de origem político-revolucionária como os infelizes (es)colhidos? Ou o dia 10 de Junho, para todos os efeitos?
E mais ainda: se Portugal é uma República e, por isso, um Estado laico... porque não eliminar os feriados religiosos como o 1 de Novembro e tantos outros feriados católicos?
É que a religião, Sr. Primeiro Ministro, é uma coisa que é parcial a apenas um grupo de cidadãos, enquanto a celebração do regime republicano, a liberdade conquistada com o 25 de Abril, os direitos dos trabalhadores e a independência de Portugal são comuns a todos os cidadãos, sejam eles católicos, protestantes ou anglicanos - como eu queria poder ser para não ter que gramar com as tolices inexplicáveis deste Governo obcecado pela austeridade...
Não é a eliminação de feriados que vai aumentar a produtividade dos Portugueses. Vai, simplesmente, acirrar o espírito dos trabalhadores que, se já se sentem onerados em excesso pelas medidas de disciplina orçamental, se sentirão ainda mais violados e desrespeitados agora que perdem ainda mais direitos e o seu trabalho fica objectivamente e verificavelmente mais barato.

Os grandes senhores da banca internacional e os seus esbirros-políticos-neo-liberais comeram tudo quanto puderam e as pessoas comuns é que pagam a conta no final. Pagam com cortes nos ordenados, com impostos cada vez mais pesados, com a supressão de direitos adquiridos e, agora, pagam com mais dois dias de trabalho além daqueles que já dão...
Se isto continua assim, antes do final do mandato do presente Governo, vai ser um privilégio um trabalhador poder estar acorrentado e ser açoitado se não cumprir com as suas tarefas do dia - que nessa altura terá 16 horas de trabalho. Felizmente, o trabalhador poderá ter a companhia dos seus filhos de 6 anos no trabalho.
Ah, pois! Todos têm que contribuir para o sustento do Estado!

fp

2 Comments:

Anonymous john said...

Terei de discordar com dois pontos:

1. Os feriados religiosos fazem todo o sentido, por fazerem parte da cultura portuguesa. Mesmo sendo o Estado laico - como deve ser, aliás - a celebração de Todos-os-Santos ou da Páscoa faz todo o sentido no contexto da nossa matriz cultural - que, goste-se ou não, acredite-se ou não, é cristã e católica. A lógica de eliminação do feriado a 1 de Novembro obrigaria também à eliminação, por exemplo, do Natal.

2. O 5 de Outubro que actualmente comemoramos é irrelevante na medida em que também a 5 de Outubro se atribui o Tratado de Zamora, que em 1143 reconheceu o Reino de Portugal. Mais do que a data da revolução republicana, é a data da fundação de Portugal enquanto país soberano e independente. Isto sim, merece celebração.

No resto, estou de acordo. Não é por se eliminar quatro feriados (há dois religiosos que também caem) que Portugal passa a ser um país mais produtivo.

11:00 PM  
Blogger Francisco said...

John:
Concordo inteiramente e reitero a ideia de que a nossa matriz cultural é judaico-cristã. Concordo ainda com a questão que levantas em relação ao 5 de Outubro. A fundação da nacionalidade é mais importante do que a república, mas não há nada a fazer em relação a isso. Já é difícil as pessoas saberem quando é a o dia da implantação da república.
O meu objectivo com este post não é debater as miudezas desta medida governamental. É levantar polémica e fazer com que os nossos leitores pensem - porque é assim que eu próprio penso.
Obrigado pelo comentário!
Um abraço!

10:51 AM  

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