2.2.12

Um Ferrari sem combustível...

Há uns meses atrás, quando estava a concluir a minha Pós-graduação em Estudos Europeus tive a oportunidade de travar conhecimento com um colega Brasileiro que tinha vindo para Portugal para fazer esse curso.
Enquanto esperávamos a nossa vez para sermos trucidados numa das provas orais da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra entabulámos alguma conversa. Falámos de Portugal e da sua situação financeira e económica, falámos do Brasil e da sua situação económica e financeira. Falámos das famosas "anedotas de Português" de que os Brasileiros tanto gostam por escarnecerem do seu antigo colonizador - este meu colega e amigo disse que abominava as anedotas de Português. Disse que eram injustas e que, pura e simplesmente, não tinham piada. É que para uma anedota ter piada tem que cumprir um de dois requisitos:
1) ser uma proposição absurda, "nonsensical" como dizem os nossos amigos anglo-saxónicos ou
2) ter um fundo de verdade, ter algo de concreto que possa ser alvo de escárnio - normalmente construtivo, para que o humor tenha sentido de humor...
Contou-me que, na altura da Páscoa, tinha regressado ao Brasil e que um amigo lhe pediu para, em trinta segundos e não mais, resumir Portugal. Ele disse que não precisava de tanto, que cinco segundos bastariam: "Portugal é um Ferrari sem combustível", disse ele.
E explicou: somos um país da Europa ocidental, culto, civilizado, com um património histórico e cultural notável. Temos estruturas básicas que na maior parte do Brasil não passam de um sonho. Somos gentis e educados, passando o tempo a dizer "com licença" e "desculpe" e "faz favor". Temos Universidades de grande nível na Europa. Temos um potencial económico notável e somos corajosos, hábeis, ordeiros e trabalhadores. Somos verdadeiramente civilizados.
Em suma: somos construídos à mão, somos vermelhos e estofados com o mais fino cabedal; debaixo do capot temos um motor V12 sofisticado e que faz um barulho que se assemelha mais a uma trombeta do juízo final do que a outra coisa. Mas não temos combustível...
A questão é: para onde foi esse combustível? Quem nos roubou a gasolina essencial para que consigamos fazer o nosso "grand tour"? E se queremos colocar de lado essas questões mesquinhas de querer saber quem foi... porque não conseguimos arranjar a gasolina de que precisamos?
Mas um Ferrari sem combustível, podemos argumentar, sempre tem o valor estético e intrínseco de ser uma obra de engenharia e arte.
O que está a acontecer é assustador: o Ferrari está a ser desmantelado e a ser vendido às peças para financiar os Ladas, os Yugos e os Simcas - enfim, veículos construídos de forma inferior e de qualidade duvidosa - que constituem os círculos de poder neste país. Ou garagem... já me perdi na metáfora.
A questão é simples: Portugal tem o potencial para ser um país fantástico. Mas o potencial está a ser desperdiçado. Mais que isso, o potencial está a ser e tem sido suprimido pela sucessão de Governos da República que temos tido desde há muito tempo.
É uma pena...

fp

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