Os Inconvenientes da Finitude
Não estou certo de que se tenha olhado de boa-fé para este circunstancial excesso de dívida dos países periféricos Europeus. Já que estes têm, em diversas praças, sido mascarados de seres humanos finitos, com todas as características desagradáveis que deles decorrem: adoecem, perdem os sentidos, um dia morrem e nada restará deles para além de ténues recordações. Obviamente que, do ponto de vista da reacção dos agentes económicos aos incentivos com que são confrontados, um Estado é diferente de um indivíduo. O Estado é um organismo infindo e ilimitado; um ser humano, não. E é-o não só no que respeita ao carrossel de dívida («Elementar, meu caro Watson!»), como também na imperatividade que a decisão pública transporta desde a raiz; o ius imperium.
Se, por um lado, um ser humano tem um limitado número de períodos para o cumprimento de um contrato; para um Estado a estafeta passa de uns para outros diluindo-se a titularidade; sem que isso ponha em causa o cumprimento do acordado previamente. Não é, portanto, legítimo decalcar directamente raciocínios com aplicação limitada a agentes-finitos (aquelas tretas da «dona-de-casa responsável», com que o Dr. Medina enche sempre a boca) para agentes-infinitos, esperando que daí resultem conclusões dignas e iluminadas. Cada macaco no seu galho, já dizia o Sr. António do talho.
Vivemos, num certo sentido, numa sociedade pós-democrática, vagamente arraçada de irreverente, mutante para uma qualquer coisa que ainda não o é verdadeiramente. A uma certa ideia de conjunto esparso de países vizinhos no pós-guerra, construiu-se uma união política e uma sub-união para-monetária. Nunca se chegou a acertar as pontas para a limpar definitivamente do «para» com que nasceu e manteve-se imperfeita até aos dias de hoje. Infelizmente, muitos são os que ao invés de manterem a cabeça fria e acoplarem o que sempre houve para acoplar, preferem deitar o castelo de areia todo ao chão e não construir nenhum outro no seu lugar. São opções.
jtf










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