31.3.12

Portugal: morada do paradoxo

Dificilmente encontraremos um país mais paradoxal do que Portugal.

Pessoas no limiar na pobreza - mas com um parque automóvel carregado de viaturas novas e reluzentes...
Milhares de jovens licenciados - mas sem conseguirem encontrar emprego nas suas áreas de qualificação...
Políticos a apelarem a sacrifícios e a esforços de conjunto - mas que incitam os jovens mais capacitados a abandonarem o país e a procurarem no estrangeiro as oportunidades que aqui lhes são vedadas...
Um país que foi dos primeiros a abandonar a prática da escravatura - mas que a reinventou sob a égide do estágio profissional não remunerado...
Um país que defende as tecnologias e o imperativo de uma "agenda digital" - mas que ainda conta com uma taxa de analfabetismo alarmante...
Um país que defende a renovação e a convergência da língua portuguesa com um novo acordo ortográfico - mas que não estimula a indústria livreira e trata mal os autores de língua portuguesa...
Um país que se arroga de uma cultura vasta e diversa - mas que não fomenta ou estimula a produção cultural...
Uma república que se diz justa e meritocrática por ser república - mas que num debate (não tão antigo assim) em que se colocaram em evidência as diferenças ideológicas entre o sistema republicano e monárquico se fez representar por um grão-mestre de uma ordem maçónica...
Um país que se diz democrático e de primeiro mundo, no qual os valores da justiça são cimeiros - mas onde os mais ricos se escapam do juízo do tribunal quando são constituídos arguidos...
Um país que diz ter dado novos mundos ao mundo - mas que se isola na sua mundividência salazarenta...
Um país que tem tudo para ser perfeito (gente boa, clima bom, potencial criativo e produtivo) - mas que resvala para a corruptibilidade e retrocesso civilizacional...

Um país que poderia ser algo de magnífico - mas que por causa da sua má gestão, da falta de instrução das pessoas, da falta de valor dado à cultura como um todo se encontra, hoje, num lugar triste e sem rumo. Mas à espera da concretização de um ideal messiânico e sebastianista que sabe ser uma ilusão. Mas espera sempre - porque não tem mais nada que fazer porque todos dizem que não há nada que fazer.

fp

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