19.3.12

Santos Pereira a fazer pontaria aos próprios pés

Título redundante e post escrito relativamente à pressa, dado que a personagem que o fundamenta também não merece que se perca muito tempo sobre ele. Ao que parece, o Ministro da Economia e do Emprego decidiu perorar sobre dívida e a consequente ‘necessidade’ de austeridade. Nada como entrar à matador, puxar dos galões, e garantir que, apesar de se “dizer que o crescimento económico" não "tem a ver com as finanças públicas, que há demasiadas finanças e pouca economia", a verdade é que "quem diz isso, não percebe de economia".

Não contente com isso, avança para a estafada (e inteiramente errada e enganadora, ainda que devidamente desmistificada) analogia entre a dívida das famílias e as dívidas dos estados. Sobre este ponto, acho que basta repescar o que diz Paul Krugman sobre o assunto:
“Deficit-worriers portray a future in which we’re impoverished by the need to pay back money we’ve been borrowing. They see America as being like a family that took out too large a mortgage, and will have a hard time making the monthly payments.
This is, however, a really bad analogy in at least two ways.
First, families have to pay back their debt. Governments don’t — all they need to do is ensure that debt grows more slowly than their tax base. The debt from World War II was never repaid; it just became increasingly irrelevant as the U.S. economy grew, and with it the income subject to taxation.
Second — and this is the point almost nobody seems to get — an over-borrowed family owes money to someone else; U.S. debt is, to a large extent, money we owe to ourselves.”
Em conclusão, diz ele, “The general point is that the analogy with a family that owes too much is all wrong. Unfortunately, this dumb analogy dominates our national discourse”. A resposta do nada dumb Santos Pereira adivinha-se pronta: “Esse Krugman é um merdas que não percebe nada de Economia”.

Segue-se o diagnóstico para que Portugal regresse aos amanhãs que cantam: “conseguir crescer -- que significa criar emprego -- é baixar a dívida, é a consolidação orçamental". Para não deixar dúvidas, o caríssimo Santos Pereira refere mesmo que "é por isso que a austeridade é tão importante”. Uma olhadela rápida para a evolução das dívidas públicas dos países sujeitas a austeridades curativas impostas pelos Gapares e Santos Pereiras por essa Europa fora é ilustrativa qb (clicar para aumentar):
Não só se projecta que Portugal tenha uma dívida pública, no final de 2016, superior à que detinha no final de 2011 (forma curiosa de baixar a dívida), como se observa que estes 4 países, seguramente entre os que mais medidas de austeridade aplicaram na zona euro, chegam a 2016 com uma dívida largamente superior à que detinham no final de 2009 (sim, poder-se-ia descontar o efeito entre 2009 e 2010 na Irlanda, cujo aumento se deve principalmente razões não relacionadas com a austeridade, mas em nada influencia o conteúdo do post). Enfim, talvez alguém devesse mostrar ao Santos Pereira a base de dados do World Economic Outlook, do FMI, de onde aqueles dados foram retirados. Mas, dado que a razão aparenta ser algo que não assiste o Ministro, também é discutível que isso viesse a ter algum efeito.

Por fim, gostaria de perceber de que forma é que um país com desemprego galopante, sucessivos cortes salariais, e austeridade infinita, consegue reduzir a dúvida privada – que era, no início da crise, em Portugal e na generalidade da Europa (com a possível excepção da Grécia), o principal problema com que se debatiam as diversas economias. Santos Pereira, lamentavelmente, não faz uso da sua profunda sapiência para explicar isso a todos nós, que “não percebemos nada de economia”.

sp

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