Vergonha
Estivessemos nós perante uma qualquer outra forma de dissecação e poder-se-ia dizer que a biopsia era ainda mais material, ainda mais substantiva. Este exercício pluri-interospectivo, visceral e intestino já McQueen o tinha feito com assombro que bastasse em Hunger. Aqui, Shame, o exercício como que se translada e se amplifica para outros domínios do íntimo; ou, se quisermos, para o íntimo ele mesmo, personagem central da condição do vivo. Na verdade, McQueen faz, pelos gestos e pelas expressões de Fassbender, acrobacias só ao alcance de ginastas treinados. A arte do contra-plano, do plano-fixo, do movimento corpóreo, os pequenos quotidianos interiores. Porém, com a mesma subtileza, surgem pequenos frames que transportam para o imediatismo inerente à condição. New York New York.
Claro que uma película introspectiva, profanadora do casulo íntimo, vive simultaneamente de um conflito inter-pessoal e inter-relacional; um conflito de sangue, que tantas vezes é mais íntimo do que a própria intimidade. De um chapéu vintage até uma langerie vintage vão pequenos passos, pequenos saltos. Isto é, de uma certa forma, Brandon gere uma interligação vivencial entre intimidade-de-sangue e uma intimidade-de-momento; um íntimo congénito e um íntimo pervertido, quase sempre perverso.
Shame é um filme sobre o ser-se.
jtf









2 Comments:
Agora deste-me vontade de o ir a correr ver... Bolas... :D
viagensnomeucaderno.blogspot.com
sim, acho que é um filme a não perder. há uma coisa que ele não provocará: indiferença.
um abraço,
jtf
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