Foi você que falou em ignorância?
O Daniel Oliveira resolveu publicar, no Arrastão e no Expresso, um texto sobre o Icesave, a Islândia, e Portugal. Dentro do que seria previsível, os suspeitos do costume, assim que viram um texto a desancar o Daniel Oliveira, tiveram a reacção pavloviana expectável e recomendaram a prosa de Miguel Poiares Maduro no facebook.
Miguel Poiares Maduro, diga-se, não se coíbe nas palavras, sentenciando desde logo que o texto do Daniel Oliveira apenas se poderia "explicar por ignorância ou, pior, manipulação". Mandaria a prudência que, quem assim decide iniciar um comentário, tivesse o cuidado de cobrir a retaguarda e de se abrigar, não fosse a cuspidela inicial cair-lhe em cima. Mas a satisfação por desmascarar a "desonestidade intelectual" de mais um bloquista deveria ser tal que, lá para o fim do texto, lhe começam a sair umas frases algo curiosas:
Na minha opinião a grande diferença é esta: os Islandeses tiveram uma quebra brutal do seu PIB e rendimento per capita (à volta de 40%) (...) O nosso sofrimento é muito mais moderado (por comparação com o deles) mas mais longo. Ainda estamos longe no entanto da queda de rendimento que eles tiveram.
Ora vamos lá à Exhibit A (clicar no(s) gráfico(s) para aumentar a(s) imagem(ns)):
Naturalmente, a quebra do PIB, em termos reais, não foi de 40%. Por razoes que só o Miguel Poiares Maduro saberá explicar, ele entendeu que o indicador mais adequado seria o GNI per capita , medido em valores correntes (em vez de constantes), providenciado pelo Banco Mundial. Neste indicador, a Islândia sofre evidentemente uma enorme quebra, presumivelmente porque o efeito da desvalorização da coroa islandesa é capturado sem o contrabalanço da redução do índice de preços ou do deflator necessário para obter valores reais ou constantes (em vez de nominais ou correntes).
É verdade que ainda não perdemos 10% (e não 40%) do nosso PIB. No entanto, a recessão em Portugal continuará em 2013 e, provavelmente, o valor de 1% de queda do PIB (estimativa incluída no Eurostat para 2013) será claramente optimista (tanto mais quanto o governo decidir efectivamente cortar 4.000 milhões de euros em despesa). Paralelamente, apesar da enorme crise que os afectou, a Islândia já cresce há 2 anos, apresentando neste momento uma queda relativa (face a 2007) semelhante à de Portugal (assumindo como boas as projecções de queda do PIB de 3.0% em 2012).
Passemos então à Exhibit B:
Em termos de desemprego a diferença é enorme, o que, por si só, deveria ser suficiente para impedir alguém de fazer proclamações solenes sobre o "sofrimento mais moderado" de Portugal. Mas, ainda pior que a diferença de quase 10 pontos percentuais, é o facto de a taxa de desemprego islandesa já estar a descer há dois anos, enquanto a portuguesa segue imparável, em subida contínua, desde 2008.
Passemos a mais um gráfico:
É igualmente claríssimo que a Islândia está (e esteve sempre, ao longo desta crise) bem melhor que Portugal no que toca à taxa de população em risco de pobreza. Convém referir ainda que, dado que esta percentagem é calculada a partir do rendimento mediano de cada país após transferências sociais, um islandês que esteja incluído neste grupo de pessoas em risco de pobreza estará, muito provavelmente, em condições materiais bem melhores que as do seu homólogo português, dada a enorme diferença em termos de rendimento mediano em ambos os países.
Para o fim deixei o indicador em que a diferença é ainda mais gritante: percentagem de pessoas severamente desprovidas.
Sofrimento mais moderado, não é?
P.S. Não que o Daniel Oliveira não tenha textos infelizes, como este, em que, em vez de cingir a sua crítica (acertada, na minha opinião) às declarações do Ministro das Finanças japonês, envereda por generalizações inacreditáveis sobre o que considera ser a "cultura nipónica", ao melhor estilo do Arménio Carlos.
P.P.S.
sp













0 Comments:
Post a Comment
<< Home