8.1.13

Não consegui pregar olho esta noite

António Botelho não sabe o que fazer à vida e pensa todos os dias em deixá-la, abandonada, num qualquer canto de hospital. Os pais, camponeses, migraram para a cidade e trabalharam toda a vida, aqui e ali, em serviços de sapataria e um ou outro trabalho de limpeza. Divorciaram-se quando ele tinha quarenta e oito anos. Nunca mais se entenderam e deixaram definitivamente de se falar no dia em que um deles saiu de casa e passou a pernoitar na pensão que então ocupava o número 17 da mesma Rua da Casa-do-Povo. Depois da separação, António fez aquilo que qualquer um faria: leu livros de auto-ajuda, bebeu aguardente velha, dormiu até entardecer e pendurou o amor-próprio num cabide longínquo e inacessível, bem ao fundo do corredor interior. Grande, tez rosada e pele negra, ficou desempregado do pequeno restaurante da Rua do Palmo-Grande em que trabalhava há mais de quarenta e dois anos. António trabalha hoje na apanha da azeitona perto de Lima, no Peru.

jtf

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