Mitos
Este post foi principalmente motivado por uma série de erros (e afirmações tão absurdas que eu nem sei como classificar) debitadas por um indivíduo no Facebook, com quem aparentemente tenho amigos em comum. Como bónus, refira-se que tal personagem começou o seu longo comentário com um "Santo Deus, quanta ignorância", o que torna uma resposta à letra particularmente mais adequada. De qualquer forma, é também útil para responder a alguns mitos, uns bastante comuns, outros bastante específicos da confusão mental do tal indivíduo, além de servir igualmente para memória futura.
Mito 1 - Não há austeridade a sério em Portugal (a sério, foi na Alemanha pós-reunificação)
O indivíduo já referido afirma, com a certeza própria de quem não faz a menor ideia do que está a dizer, que "[os alemães] recuperaram de uma crise monstruosa de dívida recorrendo a disciplina orçamental, sem manipulações monetárias".
Não faço ideia do que seja a pretensa crise monstruosa de dívida (presumivelmente pública) que a Alemanha enfrentou - aliás, ao olhar para os números, percebe-se que tal "crise" só existe na mente muito criativa do já referido senhor. De facto, a dívida pública, em percentagem do PIB, não apresenta qualquer decréscimo relevante desde a reunificação. Especificamente, passou de 39,5% em 1991, para 61,3% em 2001, 65,4% em 2007 (na véspera da crise), chegando em 2012 aos 82.0% (ver gráfico em baixo - clicar para aumentar a imagem; a fonte vem da base de dados do WEO de Abril de 2013 do FMI).
E que dizer da ainda mais extraordinária proclamação de que eles, depois de 1998/1999, tiveram "austeridade à séria", por oposição à nossa "brincadeira de austeridade"? Bem, não surpreendentemente é mais um erro factual resultante de uma enorme ignorância misturada com preguiça intelectual.
A "austeridade" a que um país é submetido pode ser inferida a partir da evolução da despesa governamental (embora, para ser mais preciso, fosse melhor considerar apenas consumo e investimento correntes, de forma a que transferências automáticas dependentes do ciclo económico, como os subsídio de desemprego, não aparecessem aqui; neste caso vou simplificar e ignorar este efeito que, presumivelmente, apenas tornaria ainda mais evidente o efeito do gráfico que se segue).
O que se observa desde 1998 é que houve apenas 3 anos (nenhum deles consecutivo) em que este valor diminuiu, tendo o maior decréscimo sido registado em 2000 (-4,3%), embora este ano tenha sido precedido e sucedido por aumentos dos gastos do estado. Relativamente a Portugal (como já tinha sido referido pela Priscila Rêgo, uma das pessoas inteligentes de direita que vale sempre a pena ler), o conjunto dos últimos 2 anos representou uma diminuição da despesa do estado de 15,3%, mais do triplo do verificado na Alemanha. A Grécia foi ainda mais longe e, nos últimos 3 anos, reduziu a despesa do Estado em 23,2% (ver gráfico em baixo; a fonte vem da base de dados AMECO, da Comissão Europeia). Obviamente, apenas por ignorância (na melhor das hipóteses) é que afirmações como a acima referida podem ser efectuadas.
Mito 2 - A Argentina, após a bancarrota, teve uma recuperação muito difícil
Num excelente artigo sobre a recuperação da Argentina depois da bancarrota, o Center for Economic and Policy Research ilustra o percurso do país desde 2002. Os sucessos são múltiplos, começando por uma clara recuperação, que começou a seguir ao primeiro trimestre de 2002 (em que houve uma forte contracção do PIB), e que levou a que, entre 2002 e 2011, a Argentina tenha crescido, em termos de PIB per capita real, mais de 75%, um desempenho melhor que o de qualquer outro país do continente. Simultaneamente, a taxa de desemprego desceu de 22,5% em 2002 para 7,2% em 2011 (dados do WEO 2013, tal como anteriormente), enquanto as despesas sociais triplicaram em termos reais e passaram de 10,3% para 14,2% do PIB. Em paralelo, a taxa de pobreza passou de 45,5% em 2002 para 14,3% em 2011, enquanto a pobreza extrema, que afectava 29,2% da população em 2002, desceu para 6,6% em 2011.
Mas há alguém que, no seu perfeito juízo, possa negar que isto é um enorme sucesso? Sim, é verdade que a Argentina partiu de um patamar muito baixo em 2002, depois de 4 anos consecutivos de recessão que lhes custaram 21,5% do PIB. Mas convém lembrar que, além de terem perdido a possibilidade de usar políticas monetárias, eles estavam a usar exactamente o mesmo tipo de políticas orçamentais pró-cíclicas (e contraccionárias) que os países do Sul da Europa também estão a ser obrigados a tomar, e que só em 2002 houve uma ruptura com as políticas dos anos anteriores.
sp
Mito 1 - Não há austeridade a sério em Portugal (a sério, foi na Alemanha pós-reunificação)
O indivíduo já referido afirma, com a certeza própria de quem não faz a menor ideia do que está a dizer, que "[os alemães] recuperaram de uma crise monstruosa de dívida recorrendo a disciplina orçamental, sem manipulações monetárias".
Não faço ideia do que seja a pretensa crise monstruosa de dívida (presumivelmente pública) que a Alemanha enfrentou - aliás, ao olhar para os números, percebe-se que tal "crise" só existe na mente muito criativa do já referido senhor. De facto, a dívida pública, em percentagem do PIB, não apresenta qualquer decréscimo relevante desde a reunificação. Especificamente, passou de 39,5% em 1991, para 61,3% em 2001, 65,4% em 2007 (na véspera da crise), chegando em 2012 aos 82.0% (ver gráfico em baixo - clicar para aumentar a imagem; a fonte vem da base de dados do WEO de Abril de 2013 do FMI).
E que dizer da ainda mais extraordinária proclamação de que eles, depois de 1998/1999, tiveram "austeridade à séria", por oposição à nossa "brincadeira de austeridade"? Bem, não surpreendentemente é mais um erro factual resultante de uma enorme ignorância misturada com preguiça intelectual.
A "austeridade" a que um país é submetido pode ser inferida a partir da evolução da despesa governamental (embora, para ser mais preciso, fosse melhor considerar apenas consumo e investimento correntes, de forma a que transferências automáticas dependentes do ciclo económico, como os subsídio de desemprego, não aparecessem aqui; neste caso vou simplificar e ignorar este efeito que, presumivelmente, apenas tornaria ainda mais evidente o efeito do gráfico que se segue).
O que se observa desde 1998 é que houve apenas 3 anos (nenhum deles consecutivo) em que este valor diminuiu, tendo o maior decréscimo sido registado em 2000 (-4,3%), embora este ano tenha sido precedido e sucedido por aumentos dos gastos do estado. Relativamente a Portugal (como já tinha sido referido pela Priscila Rêgo, uma das pessoas inteligentes de direita que vale sempre a pena ler), o conjunto dos últimos 2 anos representou uma diminuição da despesa do estado de 15,3%, mais do triplo do verificado na Alemanha. A Grécia foi ainda mais longe e, nos últimos 3 anos, reduziu a despesa do Estado em 23,2% (ver gráfico em baixo; a fonte vem da base de dados AMECO, da Comissão Europeia). Obviamente, apenas por ignorância (na melhor das hipóteses) é que afirmações como a acima referida podem ser efectuadas.
Mito 2 - A Argentina, após a bancarrota, teve uma recuperação muito difícil
Num excelente artigo sobre a recuperação da Argentina depois da bancarrota, o Center for Economic and Policy Research ilustra o percurso do país desde 2002. Os sucessos são múltiplos, começando por uma clara recuperação, que começou a seguir ao primeiro trimestre de 2002 (em que houve uma forte contracção do PIB), e que levou a que, entre 2002 e 2011, a Argentina tenha crescido, em termos de PIB per capita real, mais de 75%, um desempenho melhor que o de qualquer outro país do continente. Simultaneamente, a taxa de desemprego desceu de 22,5% em 2002 para 7,2% em 2011 (dados do WEO 2013, tal como anteriormente), enquanto as despesas sociais triplicaram em termos reais e passaram de 10,3% para 14,2% do PIB. Em paralelo, a taxa de pobreza passou de 45,5% em 2002 para 14,3% em 2011, enquanto a pobreza extrema, que afectava 29,2% da população em 2002, desceu para 6,6% em 2011.
Mas há alguém que, no seu perfeito juízo, possa negar que isto é um enorme sucesso? Sim, é verdade que a Argentina partiu de um patamar muito baixo em 2002, depois de 4 anos consecutivos de recessão que lhes custaram 21,5% do PIB. Mas convém lembrar que, além de terem perdido a possibilidade de usar políticas monetárias, eles estavam a usar exactamente o mesmo tipo de políticas orçamentais pró-cíclicas (e contraccionárias) que os países do Sul da Europa também estão a ser obrigados a tomar, e que só em 2002 houve uma ruptura com as políticas dos anos anteriores.
sp
Labels: Alemanha, Argentina, Euro, Ignorância, Portugal

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