21.1.09

Crónicas de viagem desenterradas

Vocês sabem do que estou a falar: quando temos uma viagem longa para fazer, seja de autocarro, de comboio ou de avião, a única alternativa aceitável a uma boa companhia é... não ter qualquer companhia, e deixar que uma boa música ou um bom livro nos façam perder a noção do tempo. Por motivos vários, porém, nem sempre temos tanta sorte - e a única coisa que nos resta é mesmo uma má companhia. Foi o que aconteceu naquela fatídica tarde de domingo, quando fui apanhar o comboio para voltar da terrinha para lisboa: os planos de ocupar as minhas três horas e meia de viagem a ler um livro foram violentamente destruídos pelo M..

E antes de continuar a história, permitam-me que vos apresente o M., singular personagem de uma terra de personagens singulares como é a minha. M. foi meu colega na escola primária. A coisa prolongou-se até ao sétimo, altura em que ele decidiu "renovar o contrato" (a expressão não é dele, mas serve aqui) enquanto eu optei seguir para o oitavo ano. Em miúdos tinhamos uma relação cordial, como eu aliás tinha com todos os miúdos da minha geração - ou seja, jogávamos às escondidas, roubávamos laranjas, andávamos de carrinho de rolamentos, enfim, essas coisas. Nunca fomos inseparáveis, mas também nunca declarámos guerra um ao outro. Claro que a puberdade muda muita coisa, e a adolescência tende a complicar tudo. Adiante. A melhor forma de vos apresentar o M., e de vos mostrar como eu e ele estamos irremediavelmente em trincheiras diferentes, é através de um episódio que aconteceu tinha eu dezasseis anos. Estava no café com M. e com C., indubitavelmente o tipo mais idiota, convencido e detestável que a minha aldeia viu nascer em largos anos. A conversa acabou por cair no tema "raparigas", o que me fez remeter ao silêncio. Não discuto relações amorosas em público, e muito menos com gajos. Claro que esta regra apenas se aplica a mim - jamais a eles. E então gerou-se um momento muito interessante, em que um tipo de 17 anos (o M.) e um de 15 (o C.) começaram numa espécie de pingue-pongue frenético a debater as suas (ilusórias) conquistas sexuais. Até que, enfim, lembraram-se de que eu estava lá também. E pergunta, à queima-roupa, o C.:

"Olha lá, João, mas tu e a S., vocês já foderam, não já?" (a S. era a minha namorada da altura, estávamos juntos havia largos meses)

Ao que não tive tempo de responder, pois o bom do M. respondeu por mim:

"Oh, mas isso pergunta-se? Claro que já!" E retomou o debate. Eu continuei calado.

Retomando aqui a viagem de comboio que iria fazer anos depois, é bom de ver quie três horas e meia num comboio com o M. - ainda que os dezasseis anos já tivessem ficado há muito para trás - não era propriamente a minha perspectiva mais entusiasmante. Lá está: encontramos um conhecido num terminal de transportes e só se formos para destinos diferentes é que conseguimos escapar. Okay, o M. não vinha para Lisboa. Ia para Almada. Três horas e dez minutos na sua companhia seriam portanto inevitáveis. Sem fumar. Sentamo-nos em frente um ao outro, e após a conversa mole sobre o tempo e sobre a aldeia, pego num livro e tento ser óbvio no gesto: apetece-me ler, cala-te um bocadinho. O meu mal, claro, é ser uma pessoa bem educada. Um tipo bem educado normalmente tenta fazer passar uma mensagem desagradável de forma subtil. O problema é que os idiotas nunca percebem a subtileza. E M. nem me deixou chegar ao primeiro paragrafo da página, interrompendo a minha hipótese de fuga da seguinte forma:

"Então e gajas, João?"

Evidentemente que, a partir deste ponto, não passei do primeiro parágrafo. A pergunta era um pretexto para soltar a língua, e as três horas que se seguiram foram passadas a ouvir as conquistas sexuais de M. Ou antes, as aldrabices sexuais de M. (note-se a subtileza). Indianas, segundo ele, são muito boas na cama. Conta-me a história do bico que a tal indiana lhe terá em sonhos feito. Passa para as chinesas. Umas malucas, fazem tudo, diz ele. Mas as pretas, amigo, essas é que têm fogo. Suspiro: faltam ainda duas horas. Contra-ataco: mas olha lá, ó M., tu não tens namorada? Tem, claro que tem. Mas vive longe. Não sei como se conheceram. Não creio que ele o saiba. Mas namoram. Claro que namoram. E fodem, olá se fodem. Quando se vêem, claro. Hora e meia. Retomamos as glórias passadas. Murphy, o bom Murphy, tinha razão: cinco minutos podem demorar um minuto ou uma hora a passar. Depende de que lado da porta da casa de banho estás. Neste caso, depende da companhia que se nos impõe para três horas e meia de viagem.

Há muito tempo que não falo com o M., já agora. Cruzei-me com ele há meses na aldeia, mas trocámos apenas um telegráfico "olá-tudo-bem". Não sei se mantém a namorada de longe, assim como o score invejável de indianas, africanas e asiáticas a renderem-se aos seus encantos. Mas espero não o encontrar em comboio algum para descobrir.

john

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