Espanque-se o Pessoa, evidentemente.
O problema de Fernando Pessoa, poeta indiscutivelmente genial, é que a sua genialidade se banalizou. Não que haja qualquer problema em se reconhecer amplamente que fulano é genial se, de facto, fulano for genial. Torna-se maçador, porém, quando essa genialidade é tomada por empréstimo por toda a gente para ilustrar os cartões de visita. Não vejo ninguém, por exemplo, confessar-se admirador de Einstein por causa da teoria da relatividade, ou da fórmula e=mc2 (não sei meter o dois lá em cima, que merda). Mas mesmo na literatura, que a ciência não é para todos, nem para mim: Edgar Allan Poe, de quem o próprio Pessoa era fã confesso (até fez uma tradução muito boa do célebre poema The Raven), não fica bem numa apresentação. Ou Dostoievsky. Ou Salinger. Tolkien ou K. Dick, então, só mesmo em convenções de nerds - se eu estiver a falar com uma rapariga e referir O Senhor dos Anéis, só tenho sorte se ela for fã de Tolkien (nem digo do género literário fantástico, porque enfim, o velho John não é para todos). Mas Pessoa fica sempre bem. "Adoro Fernando Pessoa, acho-o genial." Muita gente lê isto e pensa "uau, eis aqui alguém culto, com bom gosto." Cinco anos de blogues e muitos perfis de social networking (para o português médio, leia-se hi5) depois, esta afirmação pregada na porta do nosso quartinho virtual faz-me pensar "ora aqui está alguém que só leu A Mensagem porque foi obrigada no décimo-segundo ano - nem vou mencionar Os Lusíadas -, que jamais lerá Whitman ("oh captain, my captain"), e não faz a mais pequena ideia do que significa "estoicismo", apesar de ter sublinhado a caneta florescente verde o conceito no manual de Português A ou B". Isto, atenção, não coloca em causa a genialidade de Pessoa, mas ilustra a teoria de que os bons exemplos podem ser muito mal aproveitados.
Quando entrei na bloga, a moda nem era Pessoa, era Espanca. Florbela, entenda-se (os espancamentos virtuais continuam na moda, sobretudo em caixas de comentários). Na altura, eu andava sobretudo pela "blogosfera adolescente", sítio de onde aliás nunca me desliguei completamente (como é óbvio). E qualquer estado de espírito dava um soneto da senhora. Irritava devido à falta de originalidade, já que prefiro frequentar um blogue mal escrito mas que aquilo que lá se escreve seja da autoria do próprio autor do blogue (que frase de merda), do que andar a passear por blogues onde nada mais se faz para além de copy-paste de coisas que já existem. E irritava-me ainda mais por - e isto é pessoal, claro - sempre ter tido alguma aversão a Espanca. Okay, não é má enquanto poeta (poetisa?). Mas se falamos de sonetos, então desculpem lá qualquer coisinha: Antero é de longe mais interessante. E nem vou para Camões.
O chato é que Camões nunca é genial nas nossas apresentações. Nem Cesário. Que diabo: nem Eça. Eça, pelo amor de Deus (e estou apenas no banal, porque as minhas leituras também não são nada de extraordinário). Não se cita Poe, Whitman, Plath. Pessoa e Espanca são, passe a expressão, pau para toda a obra. E que tal diversificarmos um bocadinho?*
Quando entrei na bloga, a moda nem era Pessoa, era Espanca. Florbela, entenda-se (os espancamentos virtuais continuam na moda, sobretudo em caixas de comentários). Na altura, eu andava sobretudo pela "blogosfera adolescente", sítio de onde aliás nunca me desliguei completamente (como é óbvio). E qualquer estado de espírito dava um soneto da senhora. Irritava devido à falta de originalidade, já que prefiro frequentar um blogue mal escrito mas que aquilo que lá se escreve seja da autoria do próprio autor do blogue (que frase de merda), do que andar a passear por blogues onde nada mais se faz para além de copy-paste de coisas que já existem. E irritava-me ainda mais por - e isto é pessoal, claro - sempre ter tido alguma aversão a Espanca. Okay, não é má enquanto poeta (poetisa?). Mas se falamos de sonetos, então desculpem lá qualquer coisinha: Antero é de longe mais interessante. E nem vou para Camões.
O chato é que Camões nunca é genial nas nossas apresentações. Nem Cesário. Que diabo: nem Eça. Eça, pelo amor de Deus (e estou apenas no banal, porque as minhas leituras também não são nada de extraordinário). Não se cita Poe, Whitman, Plath. Pessoa e Espanca são, passe a expressão, pau para toda a obra. E que tal diversificarmos um bocadinho?*
john
*com a devida vénia a uma ou duas pessoas que conheço, que evidentemente ficam de fora desta minha incoerente generalização.
*com a devida vénia a uma ou duas pessoas que conheço, que evidentemente ficam de fora desta minha incoerente generalização.









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