30.6.10

A independência #8

João,

sempre achei que um debate à séria tem que ser numerado. E por cardinais. Por isso, aqui vai:

#1 Concedo que se tomando à letra o conceito de "independente", não se poderá aplicá-lo estritamente neste caso. Mas, o "independente" é aqui um qualificativo conceptual que designa: artista que é frequentemente apoiado financeiramente pela tutela para desenvolver trabalhos de criação mais-ou-menos reconhecidos como importantes pelo poder político vigente. É mais ou menos isso. Era justo chamá-los dependentes? Era. Mas é apenas uma questão de nomenclatura. Poder-se-ia chamar-lhes outra coisa. Optou-se por independentes, porque nada obriga que sejam apoiados de forma recorrente. Mas, para mim, não significa que não devam ser apoiados no seu trabalho de criação tout court. Aliás, para mim (como já disse), dever-se-ia incorporar estas pessoas numa instituição que os deixasse fora da categoria de subsidiados. Com um enquadramento de financiamento que poderia e deveria ter dinheiros públicos e privados, como acontece com todos os organismos do Ministério da Cultura - TNDMII/PT, TNSJ/REN, Teatro Viriato/BPI, TNSC/EDP&MillenniumBcp , Serralves/BPI etc.

#2 Porque julgo que é no seguinte que divergimos. A tutela obviamente faz considerações subjectivas quando opta por apoiar um artista e não apoiar outro. Isso é inevitável. Contudo, não vejo mal nenhum nisso. Aliás, o critério é, obviamente canónico (i.e. discutível, aceito) mas é perceptível por todos. Volto a dizer que é impossível justificar inequivocamente por que é que Shakespeare é mais "cultura" do que Um Violino no Telhado. Posso ensaiar uma: a complexidade da mensagem; o facto de Shakespeare questionar e existência humana e potenciar a racionalização individual sobre as questões fundamentais do ser humano; não se limitar a um mero entretenimento (nada condenável); e procurar estimular uma variedade de acepções e de visões com o objectivo de situar o indivíduo no mundo que o rodeia e na sua relação com os outros. Resumindo: apesar do entretenimento não ser cultura menor – que não é -, é-o de forma mais imediata e procura, menos, levantar questões ao espectador.

#3 E julgo que essa subjectividade fica mais-ou-menos protegida pela democraticidade do regime. Ora, apesar dessa subjectividade, não aceito que para combater isso se elimine o apoio estatal à criação cultural. Por mais subjectiva que seja. Desde que seja assumida, tem, para mim, tanta legitimidade como escolher manuais no ensino básico, secundário e superior. São escolhas. Mas isso não pode implicar a demissão do Estado no seu apoio. Nada é perfeito. Sendo a arte das escolhas, a Política também não o é.

#4 Obviamente que quando escolhes ler uma obra e não ler outra, estás no teu direito e isso só te vincula a ti. Certo. Mas, a meu ver, deve o Estado definir, com critérios transparentes, quais os criadores que apoia e continuar a fazê-lo. Não deve, uma vez que é difícil definir critérios de definição de "cultura", resolver esse problema não apoiando ninguém.

#5 Quando dizes que o Estado devia apoiar de tudo um pouco, isso é, na medida do possível, verdade. O Estado apoia Teatro de pendor comercial - dispenso-me de repetir o exemplo Rivoli. Para além de que o Estado apoia as escolas de formação de onde saem os criadores que fazem e farão esta vertente mais Entretenimento/Comercial. E isso também é dinheiro público.

#6 De facto, não é justo impormos as nossas escolhas individuais aos outros. Concordo. Mas quando a tutela financia um Teatro Nacional, um filme do João Botelho ou uma exposição de arte contemporânea está a fazê-lo porque entende que essa criação é um contributo cultural para o desenvolvimento da população. E, basta olhar para as programações dos Teatros ou os filmes subsidiados para ver que todos os géneros são apoiados. Desde o Manoel de Oliveira ao António Pedro Vasconcelos. O Estado não impõe género nenhum a ninguém.

jtf

1 Comments:

Anonymous john said...

Boa réplica. Responderei mais tarde, que hoje tenho um dia mais preenchido. Abraço.

11:30 AM  

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