Constatações (IV) - A minha Europa
Há cerca de um ano e pouco atrás eu estava a viver em Bruxelas; estava na recta final de um estágio INOV-Art promovido pela DG Artes e pelo, entretanto, extinto Ministério da Cultura. A sorte ditou que a minha companheira estivesse igualmente em Bruxelas a fazer um ano lectivo ao abrigo do Programa Erasmus.
Aproximava-se o Natal e um amigo nosso, na casa que partilhava com outros estudantes Erasmus, decidiu organizar um jantar de Natal e reunir amigos e conhecidos com os quais se haviam já partilhado experiências, copos e noitadas de trabalho nos ateliers da Faculdade de Arquitectura.
Para a maioria dos presentes tratou-se de uma oportunidade de convívio, diversão e um copo a mais. Para mim foi uma autêntica epifania.
A minha cada vez mais aguda consciência política - e por política entendo a compreensão das necessidades e fenómenos da nossa sociedade - não permitiu que fosse outra coisa: uma epifania.
Fala-se por vezes daqueles “life changing events” como sendo coisas grandes, sérias, cataclísmicas. Fala-se desses acontecimentos como sendo, possivelmente, momentos de enorme felicidade pessoal. Mas são sempre coisas grandes nas suas proporções. Não são - pelo menos para mim. Esses momentos são o colocar simbólico, no seu lugar, de uma derradeira peça de um dos diversos puzzles que, com esforço e sacrifício, vamos completando ao longo do nosso tempo. E, para mim, essa noite foi um desses raros “life changing events”.
O que eu vi na apertada cozinha comunitária de uma casa perto da Place du Châtelain em Bruxelas foi extraordinário. Num mesmo espaço, numa mesma noite, espanhóis, belgas, franceses, alemães, portugueses, irlandeses, italianos e romenos. Todos da mesma idade. Todos a falar uma mesma língua franca que, no caso (e contrariamente ao habitual inglês) era o francês. Todos com os mesmos ensejos, angústias, medos futuros e esperanças. Todos com o mesmo desejo de um mundo melhor, mais justo e até mais simples. Todos a partilhar pequenos pedaços da sua cultura, a contar as suas tradições natalícias e a rir do quão insólito é verificar que fazemos todos as mesmas coisas nesta ocasião transversal aos nossos calendários e que atravessa as tradições religiosas particulares a cada Estado. Católico ou Protestante, o Natal existe porque é seminal da nossa tradição Cristã. Difere o que se come na ceia de Natal - mas cantamos o mesmo, rimos o mesmo, juntamos a família à mesa da mesma forma. Temos muito mais a unir-nos do que a separar-nos.
Foi aí que eu percebi a verdadeira dimensão do ideal Europeu concebido por Robert Schuman nos idos de 1950: criar uma comunidade de Europeus, unidos na diferença, empenhados na democracia e na cooperação, determinados a banir a guerra dos nossos horizontes políticos e sociais a tal ponto que a guerra seja não só impensável como materialmente impossível. O que Schuman não viu nesse jantar de Natal foi o verdadeiro sucesso das suas ideias no plano onde a política partidária se esfuma e torna irrelevante e a verdadeira política - aquela que vem de polis - se materializa. A minha geração é uma “Geração Europa” que tem a guerra como um pesadelo histórico tão distante que se tornou absurdo. A minha geração é - se nos permitirem - a geração que sedimentará a paz duradoura na Europa porque, entrincheirada nas lamas de uma batalha, se recusará a disparar para o outro lado. Porque um soldado não saberá, com certeza, que não estará a abater um amigo.
Porém, a minha geração não tem o poder na Europa. Somos peões quase sem valor e sem destino ou esperança e assistimos impotentes aos altos círculos de governança a decidir em função de interesses pessoais, partidários e económicos todos eles cartelizados e, como tal, alheios à realidade da vida de 500 milhões de cidadãos. A geração do poder não está a agir em função do bem comum de todos os cidadãos.
A geração do poder parece pouco preocupada com os interesses gerais dos cidadãos - é mais importante a sobrevivência de um banco do que a sobrevivência de uma família; é mais importante um Estado pagar as suas dívidas com juros astronómicos do que criar um sistema que impeça a necessidade de uma família se endividar para colocar o sustento na sua mesa... É mais importante que os lucros brutos se mantenham em níveis obscenos do que providenciar condições para que as pessoas consigam manter os seus direitos laborais ou, até mesmo, para que as pessoas consigam encontrar um emprego que esteja de acordo com os seus níveis de formação académica.
Os nossos representantes eleitos não estão minimamente preocupados com o bem-estar dos seus eleitores. Porque os cidadãos são isso mesmo: eleitores de vez em quando e contribuintes sempre... a noção de cidadania é um detalhe superfluo, é uma coisa de importância menor na democracia moderna. E na Europa - na Europa em que acredito - as ideias de defesa dos cidadãos, de paz duradoura, de sustentabilidade económica das nações, eo progresso das condições de vida e empregabilidade estão completamente obstruídas pela ganância dos interesses corporativos.
A ganância é um defeito muito grave. E se os contos infantis nos ensinam alguma coisa é isso mesmo... o ganancioso e o avarento pagam sempre a conta no final. Mas isso é nos contos infantis - na vida política a ganância, a avareza e a irresponsabilidade dos "players" dominantes oneram os inocentes e não os prevaricadores. E essa não é a minha Europa - nem tampouco a Europa de Robert Schuman.
A pergunta, enfim, é: como é que, partindo da visão de Schuman e passando pela situação que narrei (com contornos de epifania) chegámos a esta coisa extraordinária que é pouco mais que o triunfo da ganância, da avareza, da irresponsabilidade e da crueldade governativa. Como é que chegámos a este estado de coisas em que a incompetência e a irresponsabilidade são aplaudidas e premiadas e a competência e o trabalho são, se não efectivamente punidos, enxovalhados e desvalorizados?
fp
Aproximava-se o Natal e um amigo nosso, na casa que partilhava com outros estudantes Erasmus, decidiu organizar um jantar de Natal e reunir amigos e conhecidos com os quais se haviam já partilhado experiências, copos e noitadas de trabalho nos ateliers da Faculdade de Arquitectura.
Para a maioria dos presentes tratou-se de uma oportunidade de convívio, diversão e um copo a mais. Para mim foi uma autêntica epifania.
A minha cada vez mais aguda consciência política - e por política entendo a compreensão das necessidades e fenómenos da nossa sociedade - não permitiu que fosse outra coisa: uma epifania.
Fala-se por vezes daqueles “life changing events” como sendo coisas grandes, sérias, cataclísmicas. Fala-se desses acontecimentos como sendo, possivelmente, momentos de enorme felicidade pessoal. Mas são sempre coisas grandes nas suas proporções. Não são - pelo menos para mim. Esses momentos são o colocar simbólico, no seu lugar, de uma derradeira peça de um dos diversos puzzles que, com esforço e sacrifício, vamos completando ao longo do nosso tempo. E, para mim, essa noite foi um desses raros “life changing events”.
O que eu vi na apertada cozinha comunitária de uma casa perto da Place du Châtelain em Bruxelas foi extraordinário. Num mesmo espaço, numa mesma noite, espanhóis, belgas, franceses, alemães, portugueses, irlandeses, italianos e romenos. Todos da mesma idade. Todos a falar uma mesma língua franca que, no caso (e contrariamente ao habitual inglês) era o francês. Todos com os mesmos ensejos, angústias, medos futuros e esperanças. Todos com o mesmo desejo de um mundo melhor, mais justo e até mais simples. Todos a partilhar pequenos pedaços da sua cultura, a contar as suas tradições natalícias e a rir do quão insólito é verificar que fazemos todos as mesmas coisas nesta ocasião transversal aos nossos calendários e que atravessa as tradições religiosas particulares a cada Estado. Católico ou Protestante, o Natal existe porque é seminal da nossa tradição Cristã. Difere o que se come na ceia de Natal - mas cantamos o mesmo, rimos o mesmo, juntamos a família à mesa da mesma forma. Temos muito mais a unir-nos do que a separar-nos.
Foi aí que eu percebi a verdadeira dimensão do ideal Europeu concebido por Robert Schuman nos idos de 1950: criar uma comunidade de Europeus, unidos na diferença, empenhados na democracia e na cooperação, determinados a banir a guerra dos nossos horizontes políticos e sociais a tal ponto que a guerra seja não só impensável como materialmente impossível. O que Schuman não viu nesse jantar de Natal foi o verdadeiro sucesso das suas ideias no plano onde a política partidária se esfuma e torna irrelevante e a verdadeira política - aquela que vem de polis - se materializa. A minha geração é uma “Geração Europa” que tem a guerra como um pesadelo histórico tão distante que se tornou absurdo. A minha geração é - se nos permitirem - a geração que sedimentará a paz duradoura na Europa porque, entrincheirada nas lamas de uma batalha, se recusará a disparar para o outro lado. Porque um soldado não saberá, com certeza, que não estará a abater um amigo.
Porém, a minha geração não tem o poder na Europa. Somos peões quase sem valor e sem destino ou esperança e assistimos impotentes aos altos círculos de governança a decidir em função de interesses pessoais, partidários e económicos todos eles cartelizados e, como tal, alheios à realidade da vida de 500 milhões de cidadãos. A geração do poder não está a agir em função do bem comum de todos os cidadãos.
A geração do poder parece pouco preocupada com os interesses gerais dos cidadãos - é mais importante a sobrevivência de um banco do que a sobrevivência de uma família; é mais importante um Estado pagar as suas dívidas com juros astronómicos do que criar um sistema que impeça a necessidade de uma família se endividar para colocar o sustento na sua mesa... É mais importante que os lucros brutos se mantenham em níveis obscenos do que providenciar condições para que as pessoas consigam manter os seus direitos laborais ou, até mesmo, para que as pessoas consigam encontrar um emprego que esteja de acordo com os seus níveis de formação académica.
Os nossos representantes eleitos não estão minimamente preocupados com o bem-estar dos seus eleitores. Porque os cidadãos são isso mesmo: eleitores de vez em quando e contribuintes sempre... a noção de cidadania é um detalhe superfluo, é uma coisa de importância menor na democracia moderna. E na Europa - na Europa em que acredito - as ideias de defesa dos cidadãos, de paz duradoura, de sustentabilidade económica das nações, eo progresso das condições de vida e empregabilidade estão completamente obstruídas pela ganância dos interesses corporativos.
A ganância é um defeito muito grave. E se os contos infantis nos ensinam alguma coisa é isso mesmo... o ganancioso e o avarento pagam sempre a conta no final. Mas isso é nos contos infantis - na vida política a ganância, a avareza e a irresponsabilidade dos "players" dominantes oneram os inocentes e não os prevaricadores. E essa não é a minha Europa - nem tampouco a Europa de Robert Schuman.
A pergunta, enfim, é: como é que, partindo da visão de Schuman e passando pela situação que narrei (com contornos de epifania) chegámos a esta coisa extraordinária que é pouco mais que o triunfo da ganância, da avareza, da irresponsabilidade e da crueldade governativa. Como é que chegámos a este estado de coisas em que a incompetência e a irresponsabilidade são aplaudidas e premiadas e a competência e o trabalho são, se não efectivamente punidos, enxovalhados e desvalorizados?
fp









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